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AUTO-CONHECIMENTO
Hora do chilique!
Você lerá a partir de agora
o depoimento de uma mulher que foi grosseira com o marido e
a interpretação desse fato desagradável
-- porém natural -- por um filósofo, um religioso,
um psicólogo, a mãe da pessoa que se descontrolou
e a vítima, no caso o parceiro. Eles respondem a pergunta:
o que fazer para evitar os pitis que causam tanto desgaste emocional
em casa?
O piti
A psicóloga Luiza*, 30 anos, suportava havia dois anos
o estresse do trabalho. A tensão piorou no dia em que
uma colega disse que poderia concluir o relatório do
mês e em seguida, para o chefe, afirmou que tinha assumido
a função porque sentiu que a equipe estava perdida.
“Era como se ela estivesse nos chamando de incompetentes.
Fiquei com tanta raiva que o único alento era pensar
que à noite iria a um show com meu marido. Fui para casa
e fiquei esperando por ele. Quando chegou e disse que não
sairíamos mais, explodi. Bati a porta do quarto e soquei
a cabeceira da cama com tanta força que estilhaços
de meu anel de vidro voaram para todos os lados. Eu me transfigurei
e não tive nem um pouco de tato. Foi deplorável.
Disse que ele não era homem porque não sustentava
as promessas que fazia. No final, fomos ao show emburrados.
Até hoje sinto vergonha do episódio.”
A voz da vítima
“Para mim, o motivo do drama foi uma viagem que estávamos
prestes a realizar. Eu queria levar amigos e ela preferia que
fôssemos sozinhos. Como nenhum dos dois cedia, o bate-boca
acabou com meu ânimo para ir ao show. Se ela tivesse dito
que estava nervosa por causa do trabalho, talvez nada daquilo
tivesse acontecido. Entendo que muita gente se controla para
não se indispor com o chefe ou os colegas e piorar um
clima tenso. Mas, se eu soubesse o que de fato a incomodava,
teria dado a maior força para ela.”
O que diz a filosofia
O piti é uma explosão de emoções
acumuladas que não encontraram espaço para se
manifestar em seu contexto. A pessoa deveria dizer algo, mas
não diz. Até que um dia os “bastas!”
trancados na garganta saem feito projéteis contra o desavisado
que passa por perto. “Um universo de desejos insatisfeitos
é condensado em uma frase irracional e a palavra se transforma
em uma arma”, explica a filósofa Márcia
Tiburi, de Porto Alegre. “Para desarmá-la, é
preciso fazer o caminho contrário, isto é, adotar
a não-violência do diálogo. Estabelecer
uma conversa em que haja perguntas, respostas e sobretudo a
disposição para ouvir o que o outro tem a dizer”,
diz Márcia. É um treino. O filósofo grego
Aristóteles já dizia que só se aprende
pela experiência. Como ela é construída
graças à memória, entendemos que um piti
injusto vai terminar em mágoa. Ou seja, não é
o que queremos para nossa vida.
Opinião de um padre
Até Jesus se descontrolou um dia, lembra o padre José
Maria Fernandes, diretor do Pátio do Colégio,
em São Paulo. “O texto sobre a purificação
do templo descreve o momento em que Cristo se irrita e derruba
várias barracas erguidas dentro de um tem-plo destinado
à oração, mas que tinha virado um mercado.
Nessa passagem, ele se altera porque falava, falava e a situação
não mudava. Aquilo foi necessário para colocar
as coisas no lugar”, explica.
“Em nossa vida é assim. Diariamente vêm uma
palavra maldosa, uma cobrança e tudo vai caindo dentro
da gente. Uma hora a natureza cobra a reação”,
acredita. Perceber essas gotas d’água, na verdade,
atitudes que não suportamos, é fundamental para
fechar a torneira que pinga descontentamentos. “Primeiro
é preciso a gente se amar, para depois gostar do outro
e, então, amar a Deus”, diz. Para se gostar mais,
comece a respeitar seus limites. Para corrigir o erro, “pare,
volte ao ponto em que perdeu a calma e tente colocar em ordem
seus sentimentos. Procure a vítima, reconheça
a falta e peça perdão”, aconselha o padre.
“O perdão é um remédio amargo, mas
melhora nossa dose de humanidade. Isso é precioso.”
Segundo a psicologia
A professora Suely Sales Guimarães, do Instituto de Psicologia
da Universidade de Brasília, considera a objetividade
a melhor forma de lidar com os ataques de cólera. “Organize
no papel a situação que provocou a fúria.
Se foi alguém que entrou em sua frente na fila do banco,
pense nas alternativas que poderia fazer: falar com a pessoa,
chamar o segurança e explicar calmamente o que aconteceu
ou ainda esperar sua vez e fazer a queixa com o gerente. Esse
exercício pode ser feito todas as vezes que você
se sentir moralmente lesado. Ele ajuda a fazer diferente da
próxima vez, encontrando soluções produtivas
que dissipem a ira”, diz. Quando algum piti estiver acontecendo
com ou perto de você, seja ativo. E autorize-se a tomar
uma atitude. Mesmo que seja ignorar o descontrole do outro:
“Você não precisa abaixar a cabeça
e suportar nada disso”.
Conselho de mãe
Quando contei para dona Margarida, 67 anos, mãe de Luiza,
que o motivo da entrevista era o dia em que sua filha perdeu
a calma, ela riu deliciosamente. “Minha filha é
muito calma e carinhosa, mas não dá para engolir
sapos sempre, não é? É muito serviço,
cansaço e responsabilidade! Ela podia ir ao banheiro,
tirar a roupa, entrar no chuveiro e ficar lá até
se acalmar. A água relaxa. A gente precisa respirar fundo,
estar uns minutos sozinha para conversar consigo mesma e lembrar
que amanhã será um novo dia.” Mas, já
que o que está feito está feito, para se reconciliar
com o marido, dona Margarida acha que a filha deveria pedir
desculpas, dizer que está com problemas no trabalho e
que não era nada daquilo que queria dizer. “Eu
o abraçaria muito.”
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Ai, que
vergonha!
Mesmo que você esteja certo, as coisas não
se resolvem no grito, principalmene quando isso ofende as
pessoas de que mais gostamos. Pegue leve e não hesite
em pedir desculpas! |
Texto: Kátia Stringueto
Reportagem Fotográfica: Graça Salles
Fotos: Cacá Bratke
O nome foi trocado a pedido da entrevistada.
junhO 2004
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