
Ira(acima), gula, inveja, avareza, luxúria, preguiça,
vaidade. Sem o peso do pecado, esses sete impulsos humanos
são forças benéficas e construtivas
que todos temos a nosso dispor. Aprenda como transformar
e usá-las a seu favor. |
AUTO-CONHECIMENTO
A força (positiva!) que mora no
pecado
O pecado é o excesso do bom.”
Essa frase do padre e filósofo santo Agostinho (350-430)
define bem por que todos pecamos.
Os sete pecados capitais* da tradição
cristã representam forças essenciais que todos
temos dentro de nós. E que bem administradas são
positivas e construtivas. “Tornam-se nocivas quando nos
deixamos dominar por elas”, diz a médica Acely
Gonçalves Hovelacque, homeopata de Belo Horizonte, que
desenvolveu um estudo sobre os sete pecados, tomando como referência
o filme Seven, de David Fincher, com Brad Pitt e Morgan Freeman.
Acely buscou na mitologia, na sabedoria indiana e na teoria
dos chacras* a base para relacionar
os pecados com emoções e atitudes. O sentido de
pecar, aqui, está mais ligado ao mau uso dessas forças,
seja pela falta, seja pelo excesso.
“A gula, a luxúria ou a vaidade, por exemplo, podem
nos arrastar para um labirinto, onde ficamos perdidos. Mas é
possível encontrar a saída”, diz.
Segundo ela, cada pecado capital representa um tipo de labirinto*.
O objetivo é chegar ao centro, enfrentando corredores
que acabam em becos sem saída. Esse ponto central representa
nosso equilíbrio, enquanto os corredores são os
obstáculos do cotidiano, disfarçados de compulsões
e hábitos perniciosos – como comer demais, ser
apegado aos bens materiais, ter inveja da felicidade alheia.
Tudo isso impede de nos sentirmos plenos.
“Muitas pessoas sentem que, apesar dos esforços
e das boas intenções, são arrastadas pelos
impulsos. Por isso, temos que aprender a lidar com essas forças
que moram dentro de nós. Isso nos torna mais conscientes
e abertos para viver relações mais saudáveis”,
diz Acely.
Conheça a seguir as atitudes que favorecem os pontos
de equilíbrio entre a falta ou o excesso dessas energias.
* Sete pecados capitais
- Eles fazem parte da tradição cristã
e foram instituídos pela igreja como faltas graves
perante Deus. Por volta do ano 400, João Cassiano,
um dos padres que pregaram nos desertos do Egito, da Palestina
e da Síria, recolheu as experiências vividas
pelos primeiros monges do cristianismo. O papa Gregório
Magno (pontífice entre 590 e 604) usou essas informações
para estabelecer os sete pecados capitais. *
Chacras são centros que recebem e irradiam
energia, localizados ao longo do corpo, segundo as filosofias
orientais. Os principais chacras são sete, alinhados
da base da coluna vertebral ao topo da cabeça.
* O labirinto aparece em diversas
culturas ao longo da história. Usado como defesa
contra invasores nas portas das cidades fortificadas, eles
simbolizam uma prova de iniciação –
que todo ser humano percorre em sua evolução
–, em que se deve enfrentar corredores e obstáculos
até chegar ao centro e encontrar o equilíbrio.
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Ira, força de sobrevivência
Existe dentro de nós uma energia naturalmente irada, instintiva,
quase animal, que devemos controlar. “Senão ficamos
coléricos, intolerantes, dominados pela emoção,
e entramos em atrito com as outras pessoas por qualquer bobagem”,
diz a médica mineira Acely Hovelacque.
Essa raiva representa o excesso de uma força primitiva,
essencial à vida, que nos faz defender o território,
a sobrevivência. “Quando nos deixamos dominar pela
ira, nos desgastamos lutando contra tudo e todos, como se algo
sempre estivesse ameaçando nosso território”,
afirma ela. Por outro lado, quando a ira está enfraquecida,
leva à auto-anulação e ao excesso de desprendimento,
o que pode abrir nossa guarda para pessimismo, depressão
e doenças ligadas à baixa imunidade. O bom uso dessa
força, no entanto, nos dá a sensação
de segurança, estabilidade e enraizamento.
Onde a ira está no corpo
No primeiro chacra, chamado básico, que fica na base da
coluna e corresponde à cor vermelha. Está ligado
às necessidades primárias e ao instinto de sobrevivência.
Como equilibrar a ira
• Pratique atividades físicas, como artes marciais
ou esportes que gastem o excesso de energia e, ao mesmo tempo,
ensinem regras e ética. Dance ou escute música inspirada
em sons tribais ou com predominância de percussão
e tambores. • Reserve um tempo para o descanso.
•Faça meditação ou pratique alguma
atividade que acalme a mente e favoreça a interiorização.
• Cultive uma atitude de contemplação –
de vez em quando, olhe o céu, admire uma flor, um jardim
ou uma bela paisagem em detalhes.
• Reorganize sua noção de valor pessoal e
busque um sentido maior para o viver, que vá além
das questões materiais.
• Aceite os limites que a vida impõe.
Gula, força dos impulsos
do prazer
Podemos ser gulosos não apenas à mesa, entre massas
e doces, mas em qualquer área da vida. Ficamos ávidos,
sem controle, por sexo, jogos, compras e tudo que nos garanta
a satisfação imediata. Também podemos ser
compulsivos nos relacionamentos, sem jamais nos sentirmos saciados
com o amor e a atenção do parceiro. O resultado
quase sempre é a sensação de ressaca física
ou emocional. “A gula é a exacerbação
dos impulsos primários de prazer, que não são
apenas naturais, porém necessários à continuidade
da vida”, afirma a homeopata Acely Hovelacque. Por outro
lado, negar ou sublimar esses prazeres também pode trazer
a sensação de perda do apetite diante da vida, o
que pode influenciar o exercício da sexualidade.
Onde a gula está no corpo
No segundo chacra, umbilical, localizado na altura dos órgãos
genitais e representado pela cor laranja. Rege a sexualidade,
a criatividade e os sistemas responsáveis pela assimilação
dos nutrientes.
Como equilibrar a gula
• Seja um gourmet, não um glutão. Aprecie
com moderação os prazeres da mesa e da cama. Refine
sua maneira de encarar a comida, a bebida e o sexo.
• Se possível, transforme as refeições
quase que em rituais, desfrutando dos sabores e valorizando a
apresentação dos pratos e as propriedades nutritivas
dos alimentos.
• Desenhe, pinte e expresse seu talento e sua criatividade.
• Lembre-se sempre de que quantidade não é
sinônimo de qualidade.
• Procure descobrir em você quais as carências
que provocam a avidez e a sensação de querer sempre
mais à mesa, no trabalho ou nas relações.
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Gula, força
dos impulsos do prazer |
inveja, força do poder
pessoal
Esse sentimento começa com a falta de consciência
de nosso brilho e valor. Essa sensação se deteriora
ainda mais, trazendo desgosto ou pesar pela felicidade de outra
pessoa. “Existem aqueles que fazem tudo pelo sucesso e para
serem admirados, enquanto outros se imaginam inferiores aos demais.
Os invejosos e os que vivem para ser invejados sofrem pelo mesmo
motivo: ainda não ter encontrado a justa medida de sua
identidade e seu poder pessoal”, explica a homeopata Acely.
Essa visão distorcida de si mesmo e dos outros minimiza
as próprias qualidades e exacerba as alheias. Hoje, quando
vivemos tempos de exagero do culto ao corpo, do sucesso e da fama,
sentir inveja é quase um risco permanente. Substituí-la
por admiração abre a possibilidade de conquistarmos
para nós as qualidades que enxergamos apenas nos outros.
Onde a inveja está no corpo
No terceiro chacra, conhecido por plexo solar, ou esplênico,
na região do estômago. De cor amarela, é responsável
pelo metabolismo e pelas funções digestivas.
Como equilibrar a inveja
• Reconheça que, em alguns momentos, pode ser natural
invejar alguém, pois somos competitivos por natureza. Entretanto,
transforme esse sentimento em metas a serem conquistadas. Por
exemplo, se invejou a alegria de alguém, pense por que
está triste e o que pode fazer por você mesmo para
também ficar alegre.
• Valorize e expresse suas qualidades e seus dons, sem supervalorizar
o estilo de vida e as conquistas dos outros.
• Aproveite os imprevistos, as perdas, o envelhecimento
e até mesmo as doenças para rever mitos e ilusões
relacionados a beleza, riqueza e poder pessoal.
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Inveja,
força do poder pessoal |
Avareza, força dos sentimentos
Por trás da ambição exagerada, da ganância,
freqüentemente existe a carência afetiva, transferida
para os bens materiais. “Perdidos no labirinto da falta
de amor e afeto, buscamos auto-estima e segurança nas posses”,
diz a homeopata Acely Hovelacque. Como o rei Midas, que na conhecida
lenda grega transformava em ouro tudo o que tocava, e por isso
quase morreu de fome, no labirinto da avareza somos levados a
acreditar que a felicidade está em possuir, coisas ou pessoas,
e não simplesmente em sentir. Nas relações,
a avareza e a cobiça podem aparecer disfarçadas
de ciúme, excesso de zelo, abnegação ou auto-anulação.
Onde a avareza está no corpo
No quarto chacra, o cardíaco, que expressa o amor, romântico
e universal. De cor verde, fica bem no centro do peito. Corresponde
ao timo, glândula responsável pelo sistema linfático
e pela imunidade frente às doenças.
Como equilibrar a avareza
• Não reprima seus afetos e procure se arriscar mais
nas relações, sem tanto medo de sofrer perdas.
• Cultive a noção de sua própria identidade
e de seu valor, para se doar mais na relação com
parceiro, família e amigos.
• Controle o ciúme, o excesso de cuidado e a vontade
de dominar pessoas ou circunstâncias.
• Aprenda com os amigos a somar as diferenças e multiplicar
as afinidades. Não sobrecarregue uma única relação
com toda sua carência.
• Reflita sobre o sentido de impermanência, isto é,
o fato de que tudo na vida passa. Cultive o desapego e procure
sentir-se pleno, vivendo o momento presente, aqui e agora.
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Para que
a sincronicidade aconteça com você, basta
estar vivo |
Luxúria, força
dos sentidos
Cair nessa tentação significa ser dominado pelo
desejo de experimentar ao máximo a sensualidade e a exuberância
dos sentidos. Desfrutar o sexo e o prazer é, sem dúvida,
altamente positivo, lembra a homeopata Acely. Mas o pecado está
no abuso, no excesso.
Um exemplo histórico dessa perda dos parâmetros é
a decadência da civilização greco-romana,
na qual o refinamento estético e a valorização
do corpo, típicos dessa cultura, descambaram mais tarde
em orgias e bebedeiras coletivas. “A luxúria é
uma orgia dos sentidos”, define Acely. É preciso
estabelecer até onde é saudável desfrutar
de sabores, aromas e até o amor com liberdade, sem compulsões.
Por outro lado, a negação dessa força prazerosa
restringe a expressão mais íntima, empobrecendo
o cotidiano.
Onde a luxúria está no corpo
No quinto chacra, o laríngeo, localizado na altura da garganta
e ligado à comunicação e à expressão
(também criativa e artística). Com sua cor azul,
corresponde à glândula tireóide, que fica
no pescoço e controla a produção hormonal
e as funções metabólicas.
Como equilibrar a luxúria
• Pinte, cante, dance, desperte e dê expressão
a seus talentos e dons criativos. Vá ao cinema, teatro,
visite museus, galerias e exposições. O contato
com as diversas formas de arte apazigua e refina os sentidos e
a criatividade.
• Escute música tranqüila, especialmente a produzida
por instrumentos de sopro, como gaita e saxofone, ou de cordas,
como violino e violão.
• Pratique a temperança — a virtude da moderação
e do equilíbrio de apetites, desejos e paixões.
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Luxúria,
força dos sentidos |
Preguiça, força
da quietude
Quando a preguiça é excessiva, somos tomados por
um falso estado de conforto que na verdade é uma espécie
de letargia, de fraqueza, que nos impede de agir com o empenho
e a determinação que a vida exige. Para que agir,
se mexer, se podemos deixar tudo o que for possível para
os outros fazerem por nós? O pecado aqui significa passar
da quietude, essencial para o equilíbrio, à indolência.
“A preguiça significa estar dominado pela inércia”,
explica a homeopata Acely Hovelacque. “A face oposta do
preguiçoso, que não quer sair do devaneio, é
o workaholic permanentemente ocupado, que não se permite
dar quietude à mente ou ao corpo, não se abre aos
sonhos e à percepção da realidade fora da
dimensão material”, lembra Acely.
Onde a preguiça está no corpo
No sexto chacra, batizado de frontal e simbolizado pelo azul-índigo.
Fica entre as sobrancelhas e está relacionado a intuição,
percepção sutil e ativação das funções
mentais.
Como equilibrar a preguiça
• Reserve um tempo para práticas que propiciem a
interiorização e a contemplação, como
a meditação. Nesses momentos, esvazie sua mente
das preocupações cotidianas.
• Escute mantras – sons sagrados que exercem um efeito
relaxante sobre a mente e o corpo – e a música de
flautas e harpas, que acalma e tranqüiliza.
• Aceite suas tarefas cotidianas, confiando em sua intuição
e na proteção e orientação divinas.
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Para que
a sincronicidade aconteça com você, basta
estar vivo |
Vaidade, força da identidade pessoal
Vaidade e orgulho, os dois atributos do sétimo pecado capital,
são exemplos de como é ambígua essa força
dentro de nós. Em que ponto gostar e cuidar de si mesmo
vira o desejo exagerado de atrair admiração? Quando
o orgulho deixa de ser um sentimento de dignidade pessoal e desanda
em arrogância e amor-próprio exagerado? No labirinto
da vaidade, a armadilha é ser dominado pelo desejo excessivo
de ser especial. E de se encantar pela futilidade, por aquilo
que é vão e ilusório. “Todos temos
em essência o dom de ser único e especial, o que
nos distingue do resto da humanidade. Quando somos conscientes
e experimentamos isso, nos sentimos plenos”, explica a homeopata
Acely. “A falta dessa energia, entretanto, nos tira a graça
e a vontade de cuidar de nós mesmos”, completa ela.
Onde a vaidade está no corpo
No sétimo chacra, o coronário, simbolizado pela
cor violeta. Localizado no alto da cabeça, é sede
da espiritualidade. Promove a inspiração e a elevação
da consciência.
Como equilibrar a vaidade
• Seja humilde e mantenha a serenidade de não se
deslumbrar com seus atributos.
• Valorize suas qualidades, mas não perca de vista
também suas imperfeições, para se lembrar
de sua condição humana.
• Reconheça nos outros a mesma centelha divina que
brilha em você.
• Tenha em casa um altar ou um espaço para orações,
onde se conecte com as forças superiores e se conscientize
do quanto somos pequenos frente ao divino.
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Para que
a sincronicidade aconteça com você, basta
estar vivo |
Texto: Wilson F. D. Weigl
Reportagem Fotográfica: Michele Moulatlet
Fotos: Mari Queiroz
MAIO 2004
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