
“O acidente me tornou capaz
de perceber a felicidade”
Lars Grael, 40 anos, iatista e
atual
secretário da juventude, esportes e lazer do estado
de São Paulo, paulista. |
AUTOCONHECIMENTO
Marcas da vida
Do direito para o avesso. É assim
que as marcas físicas, como uma cicatriz ou uma tatuagem,
deixam de ser um carimbo no corpo e criam raízes na alma.
Aqui sete pessoas contam como aceitam esses sinais e o que eles
dizem a respeito de coragem e determinação
O que parece imperfeito para um olhar alheio
ou mais desatento ganha força de aprendizado para quem
transpõe os limites da estética. São lições
de aceitação, maturidade, força, coragem
e superação que se revelam na pele, nas mãos,
nas unhas, nos cabelos.
São sinais de vida, que o tempo não apaga e que
a memória registra. E dentro desse diário pessoal,
cada um conta sua história: o pianista que não
parou com a música porque suas mãos ficaram deformadas,
a musicista que descobriu nas manchas brancas do vitiligo um
termômetro dos sentimentos ou a do fotógrafo que
aprendeu com a calvície precoce como um garoto se transforma
em homem. Observar as próprias marcas físicas
é uma forma de recontar a trajetória de cada um
de nós, com suas imperfeições e com seus
evidentes acertos.
“O acidente me tornou
capaz de perceber a felicidade”
“Em 1998, depois do acidente em que perdi a perna, durante
uma prova de iatismo, passei por um longo processo de aceitação
das marcas físicas e emocionais. Meu corpo ficou muito
alterado: no começo da recuperação fiquei
magérrimo, depois (em casa e sem praticar atividades
físicas) engordei demais, coisa inédita em minha
vida. Isso provocou uma intensa auto-rejeição,
pois já não tinha o corpo atlético de sempre.
Aos poucos, voltei ao peso ideal e, já em pleno vigor,
percebi como a falta da perna influi em todo o corpo.
Como ando muito de muleta, subo e desço escada, sou superativo,
fui desenvolvendo braço, ombro, tórax.
Por tudo que passei, as pessoas me consideram um exemplo de
superação e garra a ser seguido e não apenas
um atleta olímpico, obcecado por resultados, por títulos.
Além disso, essa limitação me faz velejar
melhor, pois não estou olhando para a próxima
marca do percurso e sim para o mar.
Aprendi a fazer uma reflexão mais profunda sobre a vida
e as relações. Porém essas descobertas
não significam que vivo melhor do que antes, apenas que
essa marca me fez capaz de perceber a felicidade.”
 |
Lars
Grael, 40 anos, iatista e atual secretário da juventude,
esportes e lazer do estado de São Paulo, paulista. |
“A cicatriz em meu peito representa
meus limites”
“Essa marca representa o caminho que a vida traçou
para mim. Eu era esportista, praticava triatlo – provas
com corrida, natação e ciclismo — e um dia,
em um check-up rotineiro, aos 27 anos, o médico descobriu
um defeito em meu coração. No auge do condicionamento
físico, precisei parar tudo para fazer uma cirurgia.
Saí do hospital com um corte enorme
no peito, que doía muito, e também vi todos os
meus patrocinadores,
que me bancavam como atleta profissional, se afastarem.
Meu instinto foi provar que eu podia superar aquilo. Aluguei
uma casa em Campos de Jordão e fui para lá treinar
sozinho. Lembro que ficava pensando sobre a relação
entre fragilidade e força. Eu olhava para
os pontos ainda muito marcados e percebia o quanto a saúde
é frágil. Mas aquilo também me dava impulso
para voltar a praticar esportes. Foi
o que aconteceu, 18 meses depois da cirurgia, quando participei
de um ironman, a prova máxima do triatlo. Aos 30 anos,
encerrei minha carreira como atleta e abri uma empresa de turismo
de aventura.
A cicatriz representa meus limites. Por causa dela sei quanta
dor posso suportar e até onde sou capaz de ir para atingir
meus objetivos. Quando alguém diz que não vai
conseguir realizar alguma tarefa, apenas abro a camisa e a marca
fala por si.”
 |
Sérgio
Zolino, 36 anos, empresário. |
“Meus joelhos marcados simbolizam
persistência e disciplina”
“Meus joelhos têm cicatrizes
das quatro cirurgias que fiz durante a vida de atleta. São
sinais das dificuldades e dores por que passei, mas também
foi por meio delas que desenvolvi virtudes como persistência
e disciplina.
A primeira marca é de uma cirurgia feita quando eu tinha
16 anos. Dez anos depois, tive uma artrose crônica nesse
joelho operado. Tinha muita dor e limitações de
movimento. Em 1995, torci o direito e rompi o ligamento, sete
meses antes das Olimpíadas de Atlanta. Eu olhava para
a cicatriz do joelho esquerdo e não acreditava que também
tinha machucado o direito.
A única solução era ganhar mais uma cicatriz
e fiz outra operação.
Dava vontade de chorar e desistir de tudo. Mas daí lembrava
que as marcas estavam ali porque eu amava jogar vôlei.
Acabei voltando das Olimpíadas com a medalha de bronze.
Parei de competir em 1999.
A fama se foi, as cicatrizes ficaram como um lembrete de que
é preciso
se esforçar para que algo dê certo. Hoje, sei que
a história por trás de cada marca me trouxe a
obstinação que tenho para tocar a ONG Instituto
Esporte e Educação, que criei há quatro
anos. No lugar, 700 crianças recebem apoio para praticar
esportes. E minha trajetória mostrou que posso fazer
diferença na vida de cada uma delas.”
 |
Ana Moser,
35 anos, ex-jogadora de vôlei, diretora do centro
olímpico da prefeitura de São Paulo e assistente
da seleção brasileira de vôlei, paulista. |
“Misturo o sonho com a determinação”
“Toco piano profissionalmente desde os 13 anos e nem problemas
neurológicos e cirurgias nas mãos me impediram
de tocar para grandes platéias. Obrigado a fazer paradas
para tratamentos, fiquei 14 anos longe do piano. A primeira
pausa foi depois de ter levado uma pedrada forte em meu braço
direito, durante um jogo de futebol, aos 26 anos.
Fiz seis operações e muita fisioterapia, mas a
dor era enorme e os médicos precisaram cortar os nervos
da mão e ela morreu. Fiquei sem tocar dos 30 aos 37 anos,
voltei aos palcos, mas tive de fazer tratamentos dos 45 aos
53 anos e foi aí que sofri meu drama maior. Em 1995,
fui assaltado, agredido na cabeça com uma barra de ferro.
Houve uma lesão cerebral, fiquei oito meses no hospital
com as duas mãos imobilizadas.
Só em 2000 voltei a tocar com a mão esquerda e,
apenas com ela, consegui concluir a gravação das
obras completas de Bach em CD.
Dois anos depois, descobri um tumor nessa mão. Operei,
mas perdi também os movimentos. Hoje, não posso
mais tocar. De dia, estudo regência. E, à noite,
sonho que dou concertos. Se sou feliz? Sim, porque continuo
a proporcionar música para mim e para as outras pessoas.
Sei que se puder mexer apenas um dedo ou só os olhos
vou continuar fazendo música. Nunca mais me afasto dela.”
 |
João
Carlos Martins, 63 anos, músico, paulista. |
“Fiz três tatuagens para
marcar as mudanças importantes
de minha vida”
“A primeira, de flores, no braço, foi quando saí
da casa da minha mãe, no final de 1999. Era o início
de uma vida independente. Por isso quis algo grande e marcante,
porque simbolizava para mim mesma que eu precisava ser forte.
pois não teria mais a proteção materna.
A segunda, feita há pouco mais de um ano, começa
na lateral e termina em cima do osso da bacia. Fiz quando me
separei, depois de um relacionamento de três anos. Tem
um significado de libertação. Foi um relacionamento
difícil e, quando nos separamos, apesar da tristeza,
senti alívio por perceber que havia tomado a decisão
certa.
Essas marcas também têm relação com
o amadurecimento de minha sexualidade. Foi uma fase em que me
sentia mais bonita – e tatuagem tem muito a ver com vaidade
—, mais dona de meu corpo. Por outro lado, foi um tempo
de mudanças profissionais, em que dei um novo rumo a
minha carreira. A última, foi a letra L, no ombro, feita
há poucos meses. Foi quando mudei para um apartamento
novo e ao mesmo tempo estava numa fase de retorno às
origens, em que me senti muito próxima de minha família
e por isso quis tatuar a inicial de meu sobrenome e também
das
palavras leveza, liberdade, luta.
Não consigo imaginar meu corpo sem as tatuagens. Quero
chegar aos 80 anos, cheia de netos e, por meio delas, contar
quem sou e por onde caminhei.”
 |
Luciana
Liebert, 30 anos, relações-públicas,
paulista. |
“Sou careca e feliz!”
“Os cabelos longos já tiveram uma representação
importante em minha vida. Pois durante a adolescência
vivi um culto ao cabelo. Gostava de rock pesado, era baterista,
tinha uma banda e ter cabelão fazia parte do contexto.
Como roqueiro, a última coisa que eu queria era ser careca.
Já foi difícil cortar os cabelos quando comecei
a trabalhar como fotógrafo num jornal do Rio. Imagine,
então, olhar para o espelho e ver as entradas se acentuando.
Aos 24 anos, eu queria escondê-las: usava boné
todos os dias, passava loções para ver se os fios
voltavam. A última tentativa foi tomar, por um ano, remédios
para calvície. Nada adiantava.
Nesse meio tempo, vim trabalhar em São Paulo e minha
carreira começou a caminhar. Consegui realizar meu grande
sonho, que era trabalhar com música e fotografia, clicando
bandas. Por trás das lentes, percebi que todas as pessoas
têm suas imperfeições. Tem modelo que não
gosta do nariz, mulher que detesta o perfil, no entanto não
deixam de ser bonitas. A maturidade profissional me trouxe a
consciência. Há três anos, cortei o cabelo
e deixei a careca à mostra. Depois deste ritual, me olhei
no espelho e me vi um homem, não mais um garoto que gostava
de rock. Acho que as mulheres me olham mais, me sinto mais bonito,
dentro de meus limites e com minhas imperfeições.
Sou careca e feliz .”
 |
Marcos Hermes,
30 anos, fotógrafo, carioca. |
Texto: Ana Holanda
Fotos: Cláudio Edinger
Abril 2004
VEJA MAIS SOBRE ESTE ASSUNTO
|