Ela toma as mais diferentes formas. Na natureza, contorna todos os obstáculos, esculpe as pedras dos rios e o fundo dos mares, se manifesta plácida nos lagos, rebelde nas cachoeiras, abençoada nas chuvas, sempre em movimento. É com ela que o barro, trabalhado pelas mãos habilidosas dos artistas da cerâmica, é moldado com delicadeza
e emoção.
HARMONIZAÇÃO

Esculpidos pela água

Quando o homem dominou a arte da cerâmica, tornou-se capaz de criar ânforas, tigelas e vasos que podiam conter e guardar seu bem mais precioso: a água, fundamental para a vida. Foi provavelmente por acidente, após um incêndio, que se descobriu que objetos feitos
de barro que passavam pela ação do fogo se tornavam rígidos, resistentes e impermeáveis. Não absorviam nem se desmanchavam com
a água. Esse momento, perdido na noite dos tempos, ocorreu há mais de 7 mil anos, nas terras do Oriente. Em essência, o processo não mudou nada ao longo dos séculos. Da argila nascem peças decorativas e utilitárias que fascinam pela beleza. Mas que não existiriam se não fosse a presença silenciosa da água, que torna a matéria-prima maleável para que o ceramista dê forma ao que, antes, era apenas terra. A água ainda é usada para umedecer as mãos enquanto a peça gira e ganha corpo no torno. “Com as mãos molhadas, damos asas à imaginação e trabalhamos a massa de argila”, descreve a ceramista Bia Ferreira da Rosa, de São Paulo Se a peça é moldada, a argila apropriada, chamada barbutina, é ainda mais líquida. “Nesse caso, é despejada nos moldes, feitos de gesso, que absorvem boa parte da água”, diz a ceramista Nelise Ometto, de São Paulo. Pronta, mas ainda crua, a peça precisa estar totalmente seca antes de ser levada ao forno para adquirir rigidez. Tem de secar durante várias horas em temperatura ambiente. “Chega até mesmo a encolher ligeiramente por causa da eliminação da água”, explica a ceramista Monica Tinoco, de São Paulo. Depois é levada para queimar, durante várias horas, num forno especial,
em alta temperatura. Daí adquire dureza e impermeabilidade suficientes para conter a água.



Jarra e bowl
Prato
Xícara
Vaso


TEXTO: WILSON F. D. WEIGL
REPORTAGEM FOTOGRÁFICA: GRAÇA SALLES
FOTOS: EDUARDO DELFIM

Abril 2003

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