
Há quase dois mil anos as palavras
de Jesus Cristo confortam, trazem alento e propõem
soluções para problemas individuais e coletivos.
Veja e aplique no dia-a-dia algumas dessas lições
preciosas e eternas. |
ESPIRITUALIDADE
8 Lições de Jesus para você
aplicar agora
Amor, paz, fraternidade, bondade, caridade,
desapego. Esses são valores que Jesus Cristo transmitiu
em três anos de pregações por Israel, registradas
na Bíblia, o principal livro da religião cristã.
Ainda hoje, nas páginas que descrevem seus feitos, milagres
e lições aos seguidores, estão chaves para
viver melhor e contribuir para tornar o mundo mais justo e humano,
como Jesus sonhou. “Na Bíblia encontram-se luz
e força para orientar a vida”, afirma Tereza Cavalcanti,
professora de introdução à sagrada escritura
do departamento de teologia da Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). O livro sagrado
está dividido em duas partes: o Antigo e o Novo Testamento.
O Antigo Testamento descreve a história do povo de Israel,
escolhido por Deus para realizar seu projeto: ser o Absoluto,
para que as relações humanas se tornassem mais
fraternas. O Novo Testamento conta a vida de Jesus Cristo, o
carpinteiro da aldeia de Nazaré que se proclamou filho
de Deus encarnado na Terra para dar continuidade ao projeto
divino. Do Livro do Gênesis, que descreve a origem do
mundo e da humanidade, ao Apocalipse de São João
– escrito pelo apóstolo com a finalidade de dar
esperança aos cristãos nos tempos de perseguição
–, os textos abrangem um período que começa
aproximadamente mil anos antes do nascimento de Jesus e termina
por volta de 130 anos depois de sua morte. “A Bíblia
é um compêndio de sabedoria, pois registra experiências
humanas durante esse período que valem até hoje”,
continua a especialista.
Como surgiram os evangelhos
Jesus não deixou nada escrito. Foram os apóstolos
e discípulos os autores dos relatos sagrados. Os quatro
evangelhos, de são João, são Mateus, são
Marcos e são Lucas, descrevem, cada um a sua maneira,
a trajetória de Jesus e seus ensinamentos. Muitos eram
dados por meio de parábolas – narrações
alegóricas que evocam a realidade por meio de comparação
e se prestam a diversas interpretações. Nenhum
texto bíblico tem valor rigorosamente histórico,
já que todos os textos são baseados em relatos
pessoais. João e Mateus pertenceram ao grupo dos 12 apóstolos,
companheiros de Jesus, enquanto Marcos e Lucas foram apenas
discípulos. Esse último nem conheceu Jesus, viveu
na Síria e apoiou seu relato apenas em testemunhos. As
Cartas de São Paulo, defensor da lei judaica que se converteu
e se tornou um dos personagens mais importantes do cristianismo,
foram escritas pelo menos 30 anos depois da morte de Jesus.
Descubra oito episódios do Novo Testamento que ajudam
você a trazer para o cotidiano os dons que Jesus pregava,
interpretados pela professora Tereza Cavalcanti.
Confie em si mesmo
Acreditar no próprio potencial e desenvolver a fé
para atingir metas que parecem distantes ou inalcançáveis
é a mensagem do episódio em que Jesus caminha
sobre a água. Ele está descrito nos evangelhos
de são Mateus (capítulo 14), são Marcos
(capítulo 6) e são João (capítulo
6).
Os discípulos estavam num barco, lutando contra a tempestade,
quando Jesus apareceu andando sobre o lago, chamado mar da Galiléia,
em Israel. Confundindo-o com um fantasma, os homens se apavoraram.
Jesus então lhes disse: “Confiança! Sou
eu, não tenham medo!” Pedro, parecendo duvidar,
respondeu: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu
encontro, caminhando sobre a água”. E Jesus disse:
“Venha!” Pedro desceu da barca e andou na superfície,
mas deixou-se tomar pelo medo e começou a afundar, pedindo
socorro. Jesus o salvou, dizendo: “Homem fraco na fé,
por que você duvidou?”
Mensagem: com a autoconfiança fortalecida,
pode-se perseguir metas que à primeira vista parecem
impossíveis. A fé proporciona alento para não
se desanimar frente aos obstáculos. No episódio
bíblico, Pedro já tinha conseguido a façanha,
quando perdeu a fé e afundou. Confia-se na própria
capacidade ao se centrar e entrar em contato com Deus e com
as próprias emoções e necessidades. A oração
e a meditação são formas de se interiorizar
e acessar o potencial que existe dentro de cada um de nós.
Compartilhe o que tem
A multiplicação dos pães e peixes ensina
como é importante partilhar os recursos de que se dispõe,
mesmo que possam parecer insuficientes. Esse episódio
é considerado um dos mais importantes do Novo Testamento,
já que é descrito nos quatro evangelhos (Mateus,
capítulo 14; Marcos, capítulo 6; Lucas, capítulo
9; e João, capítulo 6). Em suas andanças,
Jesus estava sempre cercado de gente, que o procurava em busca
de cura ou ajuda. Numa delas, pacientemente atendeu os pobres
e doentes e ficou pregando até tarde. Os apóstolos,
cansados e famintos, queriam dispersar a multidão, mas
Jesus lhes disse: “Vocês é que têm
de lhes dar de comer”. Espantados, os homens argumentaram
que só tinham cinco pães e dois peixes. Jesus
abençoou-os, partiu-os e pediu que os discípulos
os distribuíssem. E assim alimentou 5 mil pessoas.
Mensagem: por menos que se tenha para dividir,
os benefícios que resultam da ação podem
ser maiores do que se espera. O texto mostra que Deus retribui
os gestos generosos com prosperidade e abundância, pois
os apóstolos acreditavam que a comida seria insuficiente,
mas no final se surpreenderam, pois ainda recolheram 12 cestos
de sobras. Tem-se dificuldade de acreditar e apostar em tudo
que parece pequeno, frágil, não lucrativo. É
preciso lembrar, porém, que o fogo de uma vela, por mais
fraco que pareça, é capaz de acender outra, e
mais outra, e mais outra, infinitamente.
Descubra sua força
O episódio do semeador, descrito no Evangelho de São
Marcos, capítulo 4, aconselha a perseverar mesmo diante
dos fracassos e das perdas, que fazem parte da vida. A parábola
é um estímulo para descobrirmos a força
que mora dentro de cada um de nós e da qual nem sempre
temos consciência. Em uma de suas pregações,
sentado num barco, Jesus contou aos seguidores a história
de um homem que saiu para semear. Parte das sementes caiu e
foi comida pelos passarinhos. Outra porção delas
foi parar num lugar pedregoso, onde havia pouca terra –
chegou a brotar, mas logo secou. Um terceiro conjunto de sementes,
em meio aos espinhos, foi sufocado. A última parte, porém,
depositada em terra fértil, brotou, cresceu e deu frutos.
“O reino de Deus é como um homem que espalha a
semente na terra”, disse Jesus.
Mensagem: Jesus associou a palavra de Deus
às sementes que os homens iriam acolher de diferentes
formas. E alertou também que, como toda semente contém
o necessário para brotar, crescer e se transformar numa
árvore, o ser humano tem dentro de si a força
para superar as dificuldades. A parábola é um
estímulo ao recomeço. Se, em tentativas frustradas,
a semente dos desejos caiu nas pedras ou nos espinhos, no final
a terra fértil a acolherá e fará germinar.
A força divina faz prosperar todo gesto em harmonia com
toda a humanidade e com o planeta.
Não julgue os outros
Nenhum homem pode julgar e condenar, pois ninguém está
livre de pecado. Foi o que Jesus mostrou no episódio
da adúltera, descrito no Evangelho de São João,
capítulo 8. Jesus dava seus ensinamentos sentado no chão
quando chegou um grupo de doutores da lei (especialistas em
direito e intérpretes das escrituras) e fariseus (membros
de uma seita judaica que defendia o cumprimento rigoroso das
leis sagradas) trazendo uma mulher que havia sido flagrada em
adultério. Eles perguntam a Jesus se ela deveria ser
apedrejada – esse era o castigo infligido a elas, na época.
“Quem de vocês não tiver pecado atire a primeira
pedra”, responde Jesus, impassível. Sua reação
fez com que cada um desviasse o olhar da mulher e o dirigisse
às próprias atitudes. Os acusadores foram embora,
um por um, deixando a mulher sozinha com Jesus.
Mensagem: é preciso evitar os julgamentos
precipitados ou insensatos, ainda mais sob influência
de outras pessoas ou do grupo social. O primeiro passo é
se desarmar interiormente e evitar reagir com a rapidez com
que se é cobrado – na passagem bíblica,
os homens interpelam Jesus duas vezes antes que ele responda.
Fundamental também é se despir dos preconceitos
e das opiniões formadas e desenvolver a capacidade de
julgamento, pessoal e imparcial. Ouvir o que diz o coração
impede que se tome para si os valores dos outros.
Não abuse de seu poder
Em um retiro de 40 dias no deserto, Jesus foi tentado três
vezes, conforme o Evangelho de São Lucas, capítulo
4. Cada tentação representou uma forma de poder
– o político, o econômico e o religioso.
Os mesmos que muitas vezes se é tentado a usar, corrompendo
e manipulando pessoas e situações. Em jejum, morto
de fome, Jesus foi desafiado pelo demônio a transformar
uma pedra em pão, provando ser filho de Deus. E respondeu:
“Está escrito, nem só de pão vive
o homem”. O diabo então levou Jesus para o alto
da montanha e ofereceu a ele todos os reinos da Terra, com a
condição de que se prostrasse a seus pés.
Jesus se recusou: “Está escrito, adorarás
ao senhor teu Deus e só a Ele prestará culto”.
Finalmente, Satanás o conduziu à parte mais alta
do templo, em Jerusalém, e o incitou a se atirar, garantindo
que seria salvo por anjos de Deus antes de cair. Jesus mais
uma vez resistiu: “Não tentarás ao Senhor
teu Deus”. O Diabo, ao ver esgotadas suas formas de persuasão,
foi embora.
Mensagem: é preciso resistir à
tentação de tirar proveito de uma situação
usando a autoridade, a posição hierárquica,
o dinheiro ou a capacidade de persuasão com fins ilícitos
ou que possam prejudicar outras pessoas. Chantagem e corrupção
são exemplos disso. Deve-se ficar atento para não
ceder a valores fúteis e egoístas, desconectados
das verdades pessoais e do bem-estar coletivo.
Desfrute a vida
O famoso Sermão da Montanha, em que Jesus discursa à
multidão que o segue, é um dos textos mais ricos
em ensinamentos do Novo Testamento, como descreve o Evangelho
de São Mateus, capítulo 6. Entre as muitas passagens
em que Jesus proclama que os pobres, puros, mansos e perseguidos
serão recompensados no céu, ele encoraja a desfrutar
a vida, em vez de se preocupar com o acúmulo de bens
materiais, e aprender a contemplar a natureza. Jesus disse:
“Olhai as aves do céu: elas não semeiam,
não colhem, nem ajuntam em celeiros e, no entanto, o
vosso Pai celeste as alimenta. (...) Olhai os lírios
do campo. (...) Eu vos asseguro que nem Salomão em todo
seu esplendor se vestiu como um deles”. Com essas palavras,
assegurou ao povo que não se preocupasse com o que comer
ou vestir e colocasse o futuro nas mãos de Deus. “Em
primeiro lugar busquem o reino de Deus e sua justiça,
e Deus dará a vocês, em acréscimo, todas
essas coisas.”
Mensagem: ao convidar os fiéis a
seguir o exemplo dos pássaros e das flores, Jesus recomenda
que aprendam com eles a não se preocupar com o amanhã,
pois Deus sabe das necessidades de cada um e proporciona todo
o necessário para viver. E alerta para que não
se criem falsas necessidades, que consomem tempo e recursos,
escravizam e obrigam a antecipar o futuro, impedindo que se
viva o presente em toda a plenitude.
Exercite a solidariedade
Em seus gestos e palavras, Jesus ensinou a importância
de oferecer apoio e conforto sem fazer julgamentos ou juízos
de valor sobre quem merece ou não ser ajudado. Dedicou
seus anos de pregação a ouvir e atender os pobres,
loucos, deficientes físicos e prostitutas, defendendo-os
das acusações dos que se julgavam puros, perfeitos
ou donos da verdade. Jesus não escolheu os marginalizados
porque eram bons, mas porque “precisavam de médico”,
como diz o Evangelho de São Mateus, capítulo 9.
Jesus ofereceu a vida eterna a um dos ladrões crucificados
a seu lado só por vê-lo sofrendo, e sua compaixão
repercutiu positivamente no coração de alguém
considerado marginal. Respondendo ao outro criminoso que insultava
Jesus, o ladrão perdoado disse: “Não temes
a Deus nem sequer sofrendo a mesma condenação?
Para nós é justo porque estamos recebendo o que
merecemos, mas ele não fez nada de mau”. E acrescentou:
“Jesus, lembra-te de mim quando vieres em teu reino”.
Jesus respondeu: “Eu lhe garanto: hoje mesmo você
estará comigo no paraíso” (Evangelho de
São Lucas, capítulo 23).
Mensagem: ser solidário e compassivo
pode significar apenas estar junto a quem sofre ou passa por
dificuldades. Quase sempre entende-se caridade como oferta de
dinheiro ou bens materiais, enquanto a qualquer momento podemos
oferecer uma mão amiga ou uma palavra de conforto a quem
precisa.
Acredite que a fé cura
Jesus, ao restabelecer a saúde dos doentes, sempre procurava
fazê-los colaborar e acreditar na própria capacidade
de se curar. Muitas vezes, associava a salvação
dos males à própria fé e força de
vontade dos enfermos. O Evangelho de São Marcos descreve
diversas curas milagrosas no capítulo 5. Numa delas,
uma mulher que sofria de hemorragia acreditava que bastaria
tocar na roupa de Jesus para ficar sã. E foi o que aconteceu.
Jesus, então, perguntou quem o havia tocado. A mulher,
medrosa e tremendo, caiu a seus pés e contou a verdade.
Jesus então disse a ela: “Foi tua fé que
te curou. Vá em paz e fique curada”.
Mensagem: toda pessoa tem dentro de si
a capacidade de curar o próprio corpo e as emoções
ao manter a fé e a positividade. Ao longo de seus anos
de pregação, Jesus várias vezes recuperou
os sentidos perdidos de cegos e surdos e a capacidade de locomoção
dos aleijados. Dessa forma, proporcionou aos inválidos
a oportunidade de serem novamente reconhecidos dentro da sociedade,
que, na época, considerava os doentes pecadores e indignos.
Simbolicamente, os episódios mostram que abrir os sentidos
é condição para se dar conta das dimensões
espirituais que estão por trás das aparências.
TEXTO: WILSON F. D. WEIGL
REPORTAGEM FOTOGRÁFICA: SAMIR FAVITOSKI
FOTOS: ANTONIO RODRIGUES
Abril 2003
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