
Nas principais capitais dos Estados
Unidos, da Europa, do Japão e do
Brasil, grandes manifestações contra a guerra
entre americanos e iraquianos
mobilizaram milhares de pessoas. Em uníssono, o mundo
pede paz. |
CIDADANIA
Uma reflexão sobre a guerra
As relações profundamente
desiguais entre ricos e pobres, entre Norte e Sul produzem ressentimentos,
insurreições e vontade de vingança. Religiões
que se consideram portadoras exclusivas de revelação
divina diminuem o valor de outras religiões, reforçam
a arrogância, a desigualdade e geram também guerras
e conflitos devastadores.
Por detrás da violência funcionam poderosas estruturas.
A primeira delas é o caos sempre presente em todos os
processos do cosmo e da vida. Viemos de uma imensa explosão,
o Big Bang. E a evolução comporta violência
em todas as suas fases. São conhecidas cinco grandes
dizimações em massa. Na última, há
cerca de 65 milhões de anos, pereceram todos os dinossauros,
após reinarem, soberanos, por 133 milhões de anos.
A expansão do Universo tem também o significado
de ordenar o caos através de ordens cada vez mais complexas
e, por isso também, mais harmônicas e menos violentas.
Possivelmente a própria inteligência nos foi dada
para pormos limites à violência e conferir-lhe
um sentido construtivo.
Em segundo lugar, somos herdeiros da cultura patriarcal, que
instaurou a dominação do homem sobre a mulher
e criou as instituições do patriarcado, que gestou
a guerra como forma de resolução dos conflitos.
Sobre essa vasta base se formou a cultura do capital, hoje globalizada.
Sua lógica é a competição e não
a cooperação, por isso, gera guerras econômicas
e políticas, juntamente com desigualdades e injustiças.
Todas essas forças se articulam estruturalmente para
consolidar a cultura da violência, que nos desumaniza
a todos.
A essa cultura da violência há que se opor a cultura
da paz. Hoje ela é imperativa porque as forças
de destruição estão ameaçando, por
todas as partes, o pacto social mínimo, sem o qual regredimos
a níveis de barbárie. É imperativa porque
o potencial destrutivo já montado pode ameaçar
toda a biosfera e impossibilitar a continuidade do projeto humano.
Ou limitamos a violência e fazemos prevalecer o projeto
da paz ou conheceremos, no limite, o destino dos dinossauros.
A paz, numa visão realista, surge somente quando se funda
uma nova aliança de convivência pacífica
entre todos os povos, considerados como representantes da única
família humana. A paz floresce quando se refaz um acordo
de fraternidade com a Terra e todos os ecossistemas, que são
os elos da única corrente de vida da qual nós
fazemos parte. A paz só pode se estabelecer quando o
cuidado de uns para com os outros substitui a suspeita, o preconceito
e o medo, que, segundo Freud, é a origem secreta de toda
violência. A paz emerge quando religamos nosso ser e o
inteiro Universo à Fonte originária de todas as
coisas, Deus, como fez são Francisco em sua famosa oração
pela paz.
A cultura da paz começa quando se cultiva o cuidado com
todos os seres e tem-se vivo na memória o exemplo de
figuras que representam a generosidade que nos habita, como
Gandhi, dom Helder Câmara, Betinho, Luther King e outros.
Cada um estabelece como projeto pessoal e coletivo a paz, que
resulta dos valores da cooperação, do cuidado,
da compaixão e da amorosidade, vividos cotidianamente.
A paz não é apenas meta, mas deve ser também
método, e somente métodos pacíficos dão
origem à paz. Por isso, o lema não é “se
queres a paz, prepara a guerra”, mas “se queres
a paz, prepare a paz”. Isso é urgente para conferirmos
um rumo mais benfazejo à História. Toda protelação
é insensata.
Leonardo Boff é teólogo, escritor e autor de mais
de 60 livros sobre religião, filosofia e ecologia. Entre
eles Saber Cuidar e A Águia e a Galinha (ambos pela ed.
Vozes).
Abril 2003
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