Bons Fluidos foi às ruas de São Paulo descobrir quais são os medos que habitam corações e mentes. Junto com os temores, estão muitas manifestações de coragem e superação de obstáculos.
AUTO CONHECIMENTO

Você tem medo do quê?

Cada um tem suas histórias de medo, que vão acompanhando as transformações da vida. Quando crianças, ficamos paralisados com os monstros e fantasmas dos contos de fada. Mais crescidos, saímos do imaginário e temos apreensões ligadas a fatos reais: medo da prova de matemática, da bronca dos pais, da reprovação dos amigos. E, finalmente, nos deparamos com os temores da vida adulta, que permeiam a perda da liberdade e do controle de si mesmo, do outro ou das situações. A psicóloga Marilza Mestre, de Curitiba, que estuda o tema há décadas, gosta de desmitificar o medo. “É esse sentimento que possibilita termos amor pela vida e instinto de autopreservação. O medo do incêndio, por exemplo, impulsionou a descoberta de sistemas de proteção contra o fogo”, explica.

Alerta do bem
O medo é como um alarme que sinaliza a falta de ferramentas, físicas ou emocionais, para lidar com uma situação. “Por isso, antes de ser vencido, o medo deve ser escutado”, aconselha Marilza Mestra. Ele é uma reação que, por exemplo, diante da violência das ruas, nos mantém alertas, formando uma espécie de escudo protetor imaginário. Na dose certa, isso nos equilibra e cria a segurança necessária para transitarmos com liberdade. Essa sensação faz o corpo produzir mais adrenalina, que dá forças a reações como a fuga ou o enfrentamento, caso sejam necessárias. E no final dessa corrente de energia mora a coragem, que é barrada apenas quando o medo é excessivo.

Quando vira fobia
No organismo, o medo exagerado, que provoca mãos frias, suores e tremores, acelera o coração, limita as ações e diminui a auto-estima, precisa ser tratado. “São as fobias, uma reação desproporcional do mecanismo de autopreservação, que, enganado, toma como situações de risco estímulos banais do dia-a-dia”, define Neuza Corassa, psicóloga do Centro de Psicologia Especializado em Medos (CPEM), de Curitiba. Uma pesquisa realizada pelo CPEM identificou o que mais nos aflige atualmente: violência e doenças como aids e câncer. E, mais, a mulher tem maior facilidade para lidar com essas sensações por não ter vergonha de falar sobre o que alguns homens consideram fraqueza. Ledo engano. Esse mesmo estudo mostrou que os medrosos não são frágeis e têm um caráter admirável. “São, em geral, pessoas competentes, detalhistas, inteligentes, organizadas, responsáveis e críticas em relação a si e aos outros”, afirma Neuza Corassa. São muitos os caminhos que levam a superar as doses extras de medo. Os psicólogos falam em um tripé: admitir, entender e enfrentar as emoções. “Mesmo que exista a fuga, só o fato de perceber seus limites, dentro do que você pode ou não confrontar, já é um grande passo”, acredita a psicóloga Marilza Mestre. O apoio das pessoas mais próximas também é fundamental nesse processo. São gestos simples, mas que têm peso, como o aperto de mão, o olhar carinhoso e, principalmente, o respeito do outro ao sofrimento e às barreiras.

Caminhos da superação
Nessa trilha, cada um usa o recurso que pode. Meditar ou praticar técnicas de relaxamento são exercícios que recebem o aval dos especialistas. É importante também encarar o que provoca arrepios por meio da mentalização, isto é, imaginar a situação que provoca medo, visualizar as sensações e também o modo de vencê-lo. Isso ajuda a controlar a adrenalina diante do perigo real, dando espaço para a calma e o autocontrole.

Bons Fluidos foi às ruas de São Paulo descobrir quais sãos os medos que habitam corações e mentes e encontramos muitos exemplos de coragem. Mesmo quem ainda não conseguiu deixar os pavores de lado deu o grande passo de falar sobre eles, o que é fundamental para superar qualquer obstáculo

De lugares fechados
De assalto
Dos políticos
Da invalidez
Da violência
De barco
De sentir dor
De multidão
De altura
De repetir de ano
De preconceito
De morrer
De barata
De ficar muito doente
De AIDS
De fracassar


TEXTO: ANA HOLANDA FOTOS: GUSTAVO LOURENÇÃO

Abril 2003

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