Um sorriso que venha direto do coração abre caminhos, multiplica a alegria, relaxa e faz muito bem à saúde. Para a vida ficar mais fácil, não perca todas as chances de rir em casa, no trabalho, com motivo ou mesmo à toa...
AUTO CONHECIMENTO

Sorria

Não importa o jeito. Rir com os olhos, dar uma gargalhada, um sorriso apaixonado ou um leve afastar de lábios faz bem para tudo. O humor é uma espécie de cura universal e pode ser considerado um novo ramo da ciência. É o que demonstrou a Conferência anual da Associação Americana de Humor Aplicado e Terapêutico, realizada em março, em Chicago, Estados Unidos. Durante três dias psicólogos, médicos e pesquisadores apresentaram trabalhos com conclusões interessantes: ser bem humorado nos deixa mais espertos e saudáveis, melhora o sistema imunológico, rejuvenesce, levanta a moral mesmo nos ambientes mais asfixiantes e é fundamental na recuperação da auto-estima depois de grandes traumas: “Quando percebe-se o lado humorado de uma situação, mesmo trágica, isso quer dizer que recuperamos o controle da situação”, afirmou a médica Sandra Ritz em sua palestra sobre Humor para Sobrevivência. “Uma risada é capaz de abrir uma nova perspectiva diante de qualquer dificuldade”, completa. Segundo os especialistas americanos, o bom humor funciona para facilitar o aprendizado, atrair bons negócios e preservar a saúde. Porém, não é qualquer sorriso que faz todo esse bem. O tipo formal ou que traduz constrangimento não têm esse efeito. “O sorriso poderoso mesmo tem de vir diretamente do coração”, explica a terapeuta corporal Liane Zing, diretora do Instituto de Análise Bioenergética de São Paulo. “Só a manifestação sincera da alegria, do amor, do contentamento, da ternura é capaz de estimular nosso fluxo de energia vital.” Resultado: alguém que estampa um sorriso tem mais chances de estar conectado consigo mesmo e com as outras pessoas do que quem vive de cara amarrada. E a postura corporal também ganha com isso. “Quem tem o hábito de rir mostra-se mais leve e receptivo. E pode também evitar pequenas doenças, como dor de cabeça, dor nas costas e gastrite”, completa a terapeuta.

Linguagem universal
Esse gesto exclusivamente humano está presente em todas as épocas e regiões. O pesquisador alemão Irenaus Eibl-Eibesfeldt, um dos mestres da observação do comportamento humano, estudou as expressões faciais de mais de 200 culturas, dos índios xavantes aos esquimós, e concluiu que o ato de afastar os lábios e mostrar os dentes não está relacionado apenas às manifestações de alegria. Sorrir pode significar provocação, convite, desafio, sedução, afeto, ironia, submissão... Buda, por exemplo, sempre é retratado com os lábios ligeiramente fechados, esboçando um riso, sinal de serenidade. A Monalisa, obra do italiano Leonardo Da Vinci (1452-1519), ficou famosa por seu meio sorriso enigmático. Graças à sua filosofia e ao espírito acolhedor de seus habitantes, a Tailândia é conhecida como o país do sorriso. “É importante ter um rosto agradável, que dê boas-vindas a quem se aproxima”, reforça a monja Coen Sensei, fundadora da comunidade zen-budista de São Paulo. “Esse é um reflexo espontâneo da harmonia que cultivamos dentro de nós.”

O corpo agradece
Segundo Silvia Helena Cardoso, pesquisadora de neurobiologia da Universidade de Campinas, em São Paulo, o riso é um antídoto contra cansaço, depressão e ajuda até a controlar a pressão arterial. Bom para pele, pulmões e estômago, desopila o fígado e relaxa o rosto. Estudos mostram que rir também é capaz de fortalecer o sistema imunológico e estimular a produção de endorfinas, substâncias que promovem o bem-estar, aliviando dores físicas e emocionais. Por isso, iniciativas como as do grupo Doutores da Alegria – que representam sátiras para as pessoas internadas em hospitais – são tão importantes para a cura.

Clube do rarará
“Gargalhar durante um minuto corresponde ao bem-estar proporcionado por 15 minutos pedalando em uma bicicleta ergométrica”, diz o psiquiatra americano William Fry, da Universidade de Stanford, EUA, um dos pioneiros do estudo do riso. Uma boa risada também desencadeia o aumento do fluxo sangüíneo e dos níveis de oxigenação, o que aumenta a vitalidade. Abdômen, pulmões, costas e intestino são massageados por dentro. E todo o organismo agradece esse relaxamento prazeroso e espontâneo. Por tudo isso, o poder curativo da alegria é a base de um movimento internacional que começou na Índia e foi apelidado de Clube da Gargalhada. As aulas, que são ministradas na Associação de Yôga, em São Paulo, são baseadas no tripé respiração, alongamento e exercícios para liberar o riso. Para os iniciantes, a timidez é passageira, pois, como todo mundo sabe, uma boa gargalhada é sempre contagiante.

Qual é seu tipo?
Há várias formas de fazer isso e o jeito de rir diz muito sobre nossa personalidade. Quem afirma é o médico mineiro Eduardo Lambert, clínico geral homeopata e autor do livro Terapia do Riso – A Cura pela Alegria (ed. Pensamento). O riso escancarado é típico das pessoas extrovertidas, amigas e leais. Aquele sorriso que se instala gradualmente e some devagar, refletindo sinceridade e confiança, foi classificado de verdadeiro. Combina com o sorriso largo, próprio das pessoas abertas e generosas. Existe também o riso constante, dos que sempre expressam alegria, otimismo e força de caráter. Já os que riem de boca fechada demonstram controle sobre o que dizem e não gostam de se expor.
Todos são mais do que válidos, pois, como diz a canção: “É melhor ser alegre que ser triste...”



Zoom no riso
Durante uma década, o americano Robert R. Provine, professor de psicologia e neurociência da Universidade de Maryland, passou boa parte de seu tempo indo a shopping centers, parques, festas e escolas. Não em busca de diversão, mas atrás da matéria-prima para seu livro Laughter: a Scientific Investigation (Riso: uma Investigação Científica, sem tradução para o português), publicado há dois anos nos Estados Unidos. Provine analisou mais de mil situações envolvendo homens e mulheres. Notou que as pessoas riem 30 vezes mais quando estão acompanhadas do que quando sozinhas. Em menos de 20% dessas situações, as risadas foram provocadas por piadas ou alguma tentativa de fazer humor. Além disso, o estudo mostrou que as mulheres sorriem mais do que os homens, principalmente quando conversam com eles.

Efeito no amor
Analisando 3,4 mil classificados amorosos, do tipo em que as pessoas procuram um parceiro pelo jornal, Provine constatou que a maioria dos homens prefere mulheres sorridentes, enquanto suas parceiras estavam em busca de alguém que as fizesse rir. O pesquisador também investigou o riso no ambiente de trabalho e concluiu que esse tipo de manifestação é mais comum entre os subordinados que se dirigem ao chefe do que o contrário. Chefes, segundo ele, são mais solenes e sérios e não se preocupam em quebrar o gelo social. Por outro lado, o sorriso não aparece necessariamente como manifestação autêntica de prazer ou alegria. Ele também pode refletir situações de tensão ou desconforto, transformando-se no conhecido e pouco à vontade sorriso amarelo.


TEXTO: CARLA LEIRNER

Abril 2003

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