
Um dos caminhos para ter paz de espírito
e coração leve é abrir mão do
desejo de conservar as coisas, as pessoas, as situações
indefinidamente. Aprenda como libertar-se das artimanhas
do apego – isso fará bem para você e
para todos a sua volta. |
ESPIRITUALIDADE
Desgrude-se do apego
Na língua portuguesa, a palavra apego
tem até uma sentido positivo. “Ele é tão
apegado à família...”, se diz no interior
de São Paulo e Minas Gerais. Já o contrário,
o desapego, é malvisto: “Ele é completamente
desapegado, não liga para nada...” Mas o apego,
na linguagem budista e cristã, tem outro significado.
É algo opressivo, que nos asfixia e aprisiona, sem mesmo
termos consciência. “Apego é o maior sinônimo
de sofrimento e sua maior causa”, sintetiza o filósofo
indiano Krishnamurti no livro A Mutação Interior
(ed. Cultrix).
Desapegar-se, portanto, é liberar-se do apego. É,
literalmente, soltar-se do laço que nos sufoca. Algo
que traz alívio interno, paz de espírito, uma
alegria que relaxa. “O problema é que não
percebemos que existe o laço. Pensamos que não
podemos viver sem aquilo, que na verdade é uma grande
fonte de angústia”, reconhece a socióloga
Fátima Souza Murtinho, de Belo Horizonte. Como perceber
se estamos apegados a algo? “Apego é atribuir exagerada
importância a um objeto, uma situação ou
uma pessoa”, explica a psicóloga Bel Cesar, diretora
do Centro de Dharma da Paz, em São Paulo. Em outras palavras:
apego não é uma manifestação de
amor, mas de posse, um desejo incontrolável de conservar
algo para sempre.
Tudo muda o tempo todo
“Sofremos e nos inquietamos só
de pensar em nos desapegar de algo”, reconhece a psicóloga.
“Ficamos dependentes, vulneráveis. Nem percebemos
que somos nós mesmos que atribuímos tantas qualidades
àquilo que nos prende, exagerando sua real importância”,
explica Bel Cesar. E fazemos isso o tempo todo, dizem os budistas,
tanto com as pessoas a quem queremos bem como também
com aquelas a quem odiamos. É mais fácil até
nos apegarmos às emoções negativas do que
às boas memórias. Podemos ficar anos remoendo
algo que alguém disse e nos magoou.
As filosofias e religiões orientais reconhecem que somos
uma coleção ambulante de apegos: aos nossos hábitos,
às nossas pequenas manias, ao que consideramos certo
e errado, ao que achamos que somos. Simplesmente nos recusamos
a mudar – até que a vida dê um jeito de nos
obrigar a fazer isso. Foi o que aconteceu com a administradora
paulista Márcia Silva. Aos 27 anos, com três filhas
pequenas – a menor com 9 meses –, ela teve que modificar
totalmente seu estilo de vida quando o marido adoeceu. “Deixava
as crianças com os vizinhos para levá-lo ao hospital,
para sessões de hemodiálise. Aprendi a negociar
as contas atrasadas. Abdiquei da perfeição”,
conta. A dificuldade da situação a suavizou por
dentro e a despertou para a vida. “Mudei muito. Hoje interajo
mais com a vida, com aquilo que se apresenta a cada momento.
Procuro estar sempre aberta para o mundo, tanto para a beleza
como para o sofrimento”, diz Márcia. Ela recolhe
gatinhos abandonados – mesmo que para bagunçar
a arrumação da sala –, pára de reclamar
de dor da perna quando vê alguém na cadeira de
rodas. “Desapegar-se é um eterno aprendizado, que
dura toda a vida”, admite ela.
Sentimento que cola
Todo mundo já ouviu alguém
dizer: “Sou tão desapegado, para mim nada tem valor...”
Nada mais falso. Desapego nada tem a ver com indiferença.
“É uma ilusão acreditar que o desapego é
apenas uma renúncia aos bens materiais”, explica
Oddone Marsiaj, instrutor de meditação e diretor
do grupo budista Shambhala do Brasil. O verdadeiro desapego
é renunciar à cola que nos gruda a objetos, situações
e pessoas. “Podemos usufruir de tudo isso, mas sem grudar
ou se deixar aprisionar”, salienta.
Desapegar-se, portanto, não significa abdicar dos prazeres
– ter uma casa nova, usar um belo vestido, saborear uma
refeição deliciosa ou mesmo se apaixonar intensamente
por alguém. “Podemos ter o que quisermos, mas sabendo
que também podemos abrir mão de tudo, se necessário”,
explica ele.
Já o falso desapego, aquele que faz desistir da vida
e dos outros, pode esconder um amargor profundo, um sentimento
de impotência e injustiça. “Nesse caso, o
rótulo de desapego serve apenas como desculpa para encobrir
dificuldades com a parte concreta da vida”, continua o
instrutor. O raciocínio é simples: já que
não consigo ter os bens que desejo, renuncio a tê-los.
“Ou melhor, penso que desisto”, esclarece. “Na
verdade, o desejo continua existindo, só que reprimido,
sufocado, gerando frustração”, diz Oddone.
O falso desapego também pode ser usado como uma máscara
para a arrogância. Nesse caso, as pessoas se vangloriam
de sua própria condição espiritual: se
julgam desapegadas, como se fossem mártires. Santo Agostinho
(354-430), um dos maiores teólogos da Igreja Católica,
afirmou que esse é um dos maiores pecados que podem existir
– ele o chama de “o orgulho dos santos”. “Essa
pretensa espiritualidade não passa de expressão
do ego, de vaidade”, frisa Oddone Marsiaj. Pode até
se transformar num instrumento para manipular e influenciar
os outros. O verdadeiro desapego é resultado da sabedoria,
da compreensão do que é a vida. Aprendemos, por
meio dos ensinamentos espirituais ou pelas nossas próprias
experiências, que tudo nesse mundo é impermanente,
que as coisas sempre mudam e se transformam, e que ficar grudado
a situações, pessoas, sentimentos ou hábitos
torna-se apenas fonte de dor e angústia. “Compreender
e aplicar esse princípio à vida nos liberta”,
finaliza Oddone Marsiaj.
Oito passos para soltar as amarras
1. Medite em que situações
você se sente preso, asfixiado.
2. Reconheça seu apego. Essa consciência é
vital para a mudança.
3. Procure experimentar pequenas ações de desapego.
Doe objetos, desista de uma mania, mude um de seus hábitos.
4. Desperte e interaja com o mundo. Participe de uma campanha
de solidariedade, ajude quem está precisando em seu círculo
de amigos.
5. Imagine-se livre de seu objeto de apego e sinta-se feliz
por conquistar a liberdade. Prove essa sensação
quantas vezes quiser. Ela abrirá caminho para suas futuras
decisões.
6. Não tenha medo. Veja o que pode mudar em sua vida,
sinta curiosidade por outras maneiras de viver.
7. Se necessário, procure ajuda nos grupos espirituais
ou de apoio psicológico para tomar decisões importantes.
8. Medite. A meditação acalma a mente, e essa
tranqüilidade é a base para livrar-se dos apegos.
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São
Francisco nos dá o exemplo |
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Saborear
a vida |
TEXTO: LIANE CAMARGO DE ALMEIDA ALVES
ILUSTRAÇÕES: ARTHUR FAJARDO FOTOS: MARCELO ZOCCHIO
Março 2003
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