Setenta jovens que habitam a favela da Maré, no Rio de Janeiro, no espetáculo Dança das Marés.
AUTO CONHECIMENTO

Gente que dança

Longe de ser privilégio dos bailarinos, dançar é uma das formas mais divertidas de cuidar do corpo e das emoções. Enquanto se coordenam os movimentos com o ritmo da música, seja ela qual for, é possível recuperar a alegria, a saúde e até a sensação de fazer parte de um mundo melhor. Integrantes de três grupos de dança falam do prazer conquistado a cada passo.

Mais disposição, abertura de novas perspectivas, aumento da auto-estima, recuperação da dignidade e até superação de limitações físicas são sentidos por aqueles que dançam. Enquanto o corpo remexe no compasso da música, muitas qualidades corporais e emocionais despertam e criam um campo pleno de possibilidades, de vitalidade, de alegria.

O bailarino Klaus Vianna (1928-1992), um dos mais importantes do país, em seu livro A Dança (ed. Siciliano), ressalta que ela pode ser vivida como um caminho de autoconhecimento, que o corpo em movimento é uma das melhores formas de expressão. E esse prazer não é restrito a quem passou anos no balé clássico. Vale samba, capoeira, funk. Também não é necessário ter dinheiro ou um corpo escultural. Nem usar sapatilhas, pois até de cadeira de rodas é possível dançar. Os exemplos são muitos. No Rio de Janeiro, 70 adolescentes que moram na favela ganharam uma nova perspectiva de vida ao integrar um corpo de baile dirigido pelo coreógrafo Ivaldo Bertazzo. Em Diadema, município da Grande São Paulo, 11 portadores de deficiência física provam que para dançar basta apenas ter vontade. Em São Paulo, um grupo de mulheres fortaleceu os laços de amizade ao formar uma turma que se encontra todas as semanas para aprender do samba ao bolero. Anime-se e entre nesse embalo.



Com ritmo, sem limites
Para participar do grupo de dança Mão na Roda, é preciso muita disciplina e nada de atraso, queixas de cansaço ou preguiça. “Não dou muita atenção ao fato de meus alunos estarem em cadeiras de rodas. Não vejo imobilidade em nenhum deles. Vejo possibilidades”, afirma o professor Luís Ferron. Mantido há quatro anos pela prefeitura de Diadema, município da grande São Paulo, o Mão na Roda é composto por 11 portadores de deficiência física – cinco deles usam cadeiras de rodas.

Liberdade nos Gestos
Nos ensaios, mais que trabalhar a expressão corporal, o objetivo é estimular que os alunos rompam limites. “Os avanços são individuais, variam de acordo com a lesão e com a coragem. Em todos é possível notar o aumento da destreza, da intimidade com o corpo e da auto-estima”, diz Ferron. “Quando entrei no grupo, não acreditava que pudesse dançar. Era difícil, mal conseguia encarar as pessoas. Hoje sou independente, não preciso de ajuda para me locomover”, afirma Gilvanete dos Santos, 46 anos, com poliomielite desde os 2 meses de idade. As aulas são de dança contemporânea, corrente que preza a liberdade de gestos. “Eles me ajudam em tudo, coreografam comigo. Pois ninguém tem mais experiência do que eles mesmos com o corpo e com a cadeira”, afirma Ferron. Desde sua criação, o grupo apresenta-se em diversos festivais pelo país. “São eventos não restritos a portadores de deficiência. Isso promove a inclusão social”, diz. O estudante Mussid Hauache, 22 anos, paraplégico, define a emoção que o invade depois de cada espetáculo. “Há pessoas que vão ao teatro para ver deficientes dançando. E, quando saem, dizem que viram bailarinos. Esse reconhecimento é o melhor aplauso”, conclui.


Movimento de cidadania
Há três anos, o bailarino e coreógrafo Ivaldo Bertazzo deixou de dar aulas apenas em sua Escola de Reeducação do Movimento, que funciona há 28 anos em São Paulo. Agora também divide sua experiência profissional com 70 adolescentes da favela da Maré, um complexo de 16 comunidades que se espremem na zona portuária do Rio de Janeiro. “Eles se desenvolvem a cada dia. Aprendem a respeitar o espaço dos outros e a ter individualidade. Aperfeiçoam-se como bailarinos e como pessoas”, diz Bertazzo, que considera todos os seus alunos cidadãos dançantes. Ricos, pobres, jovens, velhos, gordos, magros, todos podem dançar.

Vida nova
Para fazer parte do Corpo de Dança da Maré, os adolescentes enfrentam uma rotina intensa. Os ensaios duram quatro horas nos dias úteis e oito horas aos sábados e domingos. O salário é de 200 reais por mês e é preciso freqüentar a escola. Para a maioria é uma mistura de trabalho e diversão. “Entrei no grupo para ajudar nas despesas de casa e adoro participar, mas é preciso ter responsabilidade”, diz Victor Moreno de Souza, 14 anos, que trabalhava como cobrador de lotação. Para alguns, foi o jeito de escapar das drogas. “Antes, falava que ia para escola, mas ficava na rua, na mão de bandido. Agora isso mudou. É legal subir no palco e abrir o coração para o público”, afirma Leonardo Fonseca Nunes, 16 anos. O corpo de dança já encenou três espetáculos: Mãe Gentil, Folias Guanabaras e Dança das Marés, sucessos de crítica e público, no Rio e em São Paulo. “Esses meninos mudaram sua qualidade de vida. Têm mais dignidade e auto-estima”, diz Bertazzo. Integrante do grupo desde sua fundação, Camila de Brito Freitas, 21 anos, concorda: “Hoje tenho coragem de falar mais as coisas que penso e de fazer o que quero”.


Em clima de festa
Cada aula de dança é uma celebração para um grupo de mulheres de São Paulo. Três manhãs por semana, essas amigas comemoram a alegria do encontro e, enquanto rodopiam, alongam e sapateiam, põem as novidades em dia: perguntam se uma melhorou do resfriado, dão força para a outra que está se divorciando e assim vão compartilhando a vida. A amizade já dura longos 12 anos, embalada por muita música. A artista plástica Laís Reichert, 52 anos, e a médica Lenir Mathias, 63, estão entre as fundadoras do grupo. “Gostamos de dançar e resolvemos formar uma turma. A sorte foi encontrar um professor animado, como o Brajon”, conta Laís. A devoção ao mestre é tanta que elas se autodenominam brajonetes. Carlos Brajon retribui a gentileza: “Nunca tive uma equipe tão constante assim”.

Como uma terapia
O lema é dançar de tudo um pouco: balada, tango, samba, axé, dance music. Para muitas das alunas, aprender os passos, soltar o corpo e cair na dança vale mais que qualquer terapia. “Tinha vergonha de dançar em público. Agora, adoro ir a festas”, conta Vera Lúcia Valério, 54 anos, professora de inglês. Luiza Boralli, 52, emagreceu 12 kg. “Quando comecei a fazer as aulas, há três anos, nem conseguia me olhar no espelho. Hoje, fico na primeira fila”, diz. Kathy Moor, 52, conta que a dança ajudou a reestabelecer seu equilíbrio emocional. “Uma de minhas filhas morreu há cinco anos e, desde que comecei a dançar, sinto que a vida ficou mais leve”, acredita ela. Não há um número fixo de participantes. Atualmente, são cerca de 30 alunas. “Algumas vão embora, outras trazem amigas. O importante é que continuamos juntas”, diz Laís.


Dança de salão
Bailarinos portadores de deficiência
Grupo Mão na Roda
Dança das Marés
Em grupo e em movimento



TEXTO: ANA CRISTINA GONÇALVES

Março 2003

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