...um pouco de competição, para superar obstáculos, com ética e respeito às diferenças, e não com a derrota dos colegas.
...muita cooperação, para conquistar benefícios coletivos, ter satisfação ao cumprir metas e mais força diante das dificuldades.
AUTO CONHECIMENTO

O sucesso no trabalho pede...

A vida pessoal e profissional fica mais leve quando o verbo cooperar é conjugado em harmonia com o verbo competir. São dois lados de nosso cotidiano e devem ser sempre bem dosados, pois, dependendo das atitudes que tomamos, tendemos a exagerar no desejo de vencer uma discussão ou um obstáculo, o que pode provocar muitos e desagradáveis desgastes.
Se a cooperação promove o compartilhamento, o respeito e o crescimento conjunto, a competição acirrada tende a gerar frustração, insegurança, desconfiança, sensação de derrota e de exclusão. Ter esses sentimentos no coração ou na mente atrapalha a produtividade e diminui a disposição, o que não é bom para o trabalho.

Muitos empresários, dos mais variados setores da economia, já descobriram que plantar a semente da cooperação produz uma safra melhor. “Para sobreviver no mundo globalizado e competitivo, não adianta apenas competir. Para vencer é necessário cultivar a conectividade, a ‘coopetição’, isto é, equilibrar a competição com a cooperação”, acredita o administrador de empresas Cássio Cury Mattos, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos, em São Paulo.

Isso vale para quem lidera ou é liderado, para quem ocupa cargos altos dentro de uma grande empresa ou realiza funções simples numa comunidade ou até mesmo em casa. “É fundamental seguir a máxima ‘servir ao próximo’ não apenas sob o ponto de vista da filosofia. Ter em mente que, se eu cresço, a empresa ou a comunidade crescem também muda toda a relação com o trabalho e cria relações positivas”, diz Mattos.

O respeito é produtivo
O ponto inicial de uma inversão de valores, que pode melhorar muito a qualidade do ambiente e do trabalho, é desenvolver a tolerância à diferença de idéias, de comportamento e de ritmo entre as pessoas.
Nos escritórios, onde passamos mais de oito horas por dia, cercados de gente que não escolhemos, não devemos poupar esforços para estar atento às necessidades e aos limites dos outros e evitar intrigas, fofocas e conversas que estimulem a disputa e a inveja.

As diferenças de pontos de vista e métodos entre os vários membros da equipe equilibram forças dentro de um setor, por exemplo. Somadas, as diversas correntes de pensamento se complementam e podem ser o diferencial que leva as pessoas e a empresa ao sucesso.
“Temos que nos enxergar como parte de uma teia, em que trocamos energia permanentemente com os colegas, e, com base nisso, estabelecer metas centradas no crescimento coletivo, não apenas no ganho individual”, completa Cássio Cury.

Atingir metas, ultrapassar obstáculos e crescer são objetivos importantes em todos os campos da vida. E, claro, a competição pode tirar o pior das pessoas, mas também pode ser saudável e produtiva, gerando benefícios a todos. “Competir é positivo quando as regras são claras, construídas em equipe, de modo que as concessões sejam feitas e as ordens cumpridas sem ferir nossos princípios”, alerta o administrador, advogado e economista Jair Moggi, diretor da Adigo Consultores de São Paulo, que elabora programas de gestão para empresas com valores humanitários.

É bem verdade que alguns ambientes de trabalho estão tão envolvidos em climas de disputa que parece impossível mudar algo. Mas especialmente nestes tempos de desemprego vale, antes de qualquer atitude drástica, tentar despertar a solidariedade, o companheirismo e a comunhão de ações e idéias por meio do diálogo com os colegas. Isso também melhora o ambiente de trabalho. “Uma pequena mudança de postura individual, por mínima que seja, é capaz de influir positivamente em tudo o que está a seu redor”, pondera o consultor Jair Moggi.

Para ter equilíbrio
Para quem não tem nenhuma alternativa senão a de enfrentar climas conturbados, o administrador sugere caminhos para manter o equilíbrio. “As práticas espirituais, a meditação, a ioga ou mesmo um hobby praticado com freqüência acalmam a mente, fortalecem as defesas do corpo e ajudam a nos energizar para estarmos menos vulneráveis na rotina e agirmos com clareza”, ensina.

Outra atitude saudável é, antes de dormir, fazer uma retrospectiva do dia, tomando o cuidado de não se julgar ou se desmerecer nas situações em que surgiu a competição. “Depois, dedique mais cinco minutos imaginando alternativas de cooperação para seu comportamento competitivo. Assim é possível adquirir força para, no dia-a-dia, fazer o caminho inverso da competição”, garante Jair Moggi.

Essa espécie de auto-revisão pode gerar uma estabilidade emocional que conta muito em momentos decisivos. “Por exemplo, numa reunião importante seu chefe propõe uma meta muito ousada. Em vez de aceitar e sair correndo atrás dos resultados, você pode surpreender esse líder perguntando: ‘Qual será a conseqüência disso? Como vamos atingir essa meta passo a passo?’ Assim se faz o papel de advogado do anjo, e não do diabo, questionando as reais intenções de cada um e propondo novas formas para resolver os mesmos problemas”, observa.

Competição saudável
Essa grande transformação começa por atitudes individuais que, com certeza, podem contagiar quem está em volta. “Crie um cenário diferente para o mesmo conjunto de circunstâncias e novos caminhos surgirão”, ensinam o regente da Orquestra Filarmônica de Boston, nos EUA, Benjamin Zande, e sua mulher, a psicóloga Rosamund Stone Zander, no livro A Arte da Possibilidade (ed. Campus), que mostra práticas para reinventar e melhorar o cotidiano profissional.

O maestro conta que, quando começou a praticar o “jogo da contribuição”, descobriu que não havia melhor orquestra do que a que estava regendo. Um bom começo é ajudar o colega da mesa ao lado que ainda não conseguiu atingir a meta do mês e agir com bom humor.



TEXTO: FLÁVIA BENVENGA ILUSTRAÇÕES: MILTON TRAJANO

Março 2003

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