Paisagens maravilhosas emolduraram o nascimento de uma grande amizade. A paulista Priscila Tornalbas, 50 anos, estava decidida a passar suas férias no México quando foi convidada por Luciana Vidal, 34, de Florianópolis, a irem juntas de São Paulo à Venezuela de carro. As duas, que até então mal se conheciam, resolveram unir seus destinos numa viagem cheia de emoção.
VIAGEM

Amigas de primeira viagem

Cinco dias antes de embarcar para o México – com passagens e hotéis já reservados, Priscila, professora universitária, foi a uma festa na casa de amigos. Lá, encontrou Luciana, que trabalha com eventos off-road, e soube que ela iria na mesma época para a Venezuela de carro, fazer uma surpresa ao namorado, que morava num veleiro em Puerto la Cruz. “Conversamos sobre nossos roteiros, demos idéias uma para a outra, até que Luciana me fez uma proposta: por que não deixar para depois minha viagem solitária ao México e ir com ela até a Venezuela de carro? Aquilo me pareceu uma loucura. Pensei durante um dia, topei e partimos naquela mesma semana”, conta Priscila. “Como não éramos amigas, para mim era tudo uma incógnita. Confesso que fiquei surpresa quando Priscila me telefonou dizendo que estava pronta para partir. E lá fomos nós”, lembra Luciana.

Rumo à Venezuela
A viagem de carro durou 22 dias (7,5 mil quilômetros), e elas ainda tiveram uma semana para ficar no mar do Caribe, no veleiro do namorado de Luciana. Barracas, sacos de dormir, apetrechos de acampamento, tudo pronto em três dias. Isso graças à longa experiência de Luciana em pegar a estrada. Desde criança, ela foi acostumada a viajar de carro e acampar com a família. “Isso é natural. Me sinto completamente à vontade na estrada. Converso com os caminhoneiros, peço informações. O caminho para mim é muito mais importante do que chegar a algum lugar”, pensa ela. Já Priscila tinha feito uma ou outra viagem longa de carro, mas nunca uma aventura desse tipo. Então, nada mais justo do que poder palpitar no roteiro. “Tive pouco tempo, porém estudei os mapas e disse que queria desviar um pouco a rota para conhecer Bonito, no Mato Grosso do Sul”, conta.

Na rota das afinidades
Quem já viajou bastante tempo com alguém sabe que ou você se dá bem com o outro ou a convivência fica difícil. “É impressionante, mas acho que demos mais certo do que muitas melhores amigas por aí. Nem sempre a pessoa com quem você gosta de ir ao shopping é a ideal para uma viagem dessas”, diz Priscila. Luciana concorda. “Acho que sentimos logo de cara uma afinidade. Nós duas temos muita curiosidade por pessoas, culturas e lugares novos”, completa Luciana. No caminho para Bonito, ela dirigiu o tempo todo. Depois, já no trajeto a Cáceres, ao norte do Pantanal, Priscila se sentiu confortável em guiar o carro “grandão” da nova amiga. “Desde o começo, disse que ela poderia ficar à vontade para ficar na direção quando quisesse”, fala Luciana. A viagem inteira funcionou assim: numa pacífica negociação entre as duas. Com ritmos diferentes, elas procuravam ceder e aprender uma com a outra. “Eu gosto de ficar acordada até tarde. Luciana não. Era chegar, comer e dormir. Então, às vezes ela topava um jantar mais legal, às vezes eu ia descansar mais cedo. Eu fumo, ela detesta cigarro. Por isso, passei a fumar bem menos”, lembra Priscila. Uma das partes mais emocionantes e reveladoras do caminho foi a descida do rio Madeira com o carro a bordo de uma balsa cheia de caminhões. “Nesse trecho, eu, que vou logo falando tudo, aprendi com a Lu a me controlar e nunca dizer o próximo destino. É uma medida de segurança contra possíveis assaltos e emboscadas”, diz Priscila.

Mar azul
Depois de cachoeiras, matas, serrados, rios e savanas, as duas cruzaram a fronteira da Venezuela e chegaram a Puerto la Cruz, no Caribe. Luciana encontrou o namorado, que, depois de se recuperar da emoção, levou as duas a Isla la Tortuga. Luciana e Priscila lembram de tudo com saudade e dizem, quase juntas, que o segredo da harmonia foi o fato de elas estarem abertas para o mundo. “Ficamos amigas porque, para nós, a viagem tem o significado de transformação interior. Você se depara com coisas novas, aprende com elas, e isso traz mudanças significativas para a vida”, finaliza Priscila.

Priscila
Luciana
Boiadeiros na estrada
A caminho de Vila Bela de Santíssima Trindade
Igreja do lugarejo de Kavanayen
Litoral da Venezuela
A travessia do rio Madeira


TEXTO: MICHAELA VON SCHMAEDEL ILUSTRAÇÕES: GREG

Fevereiro 2003

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