
Purificar o corpo, as emoções
e a mente é a condição para ter saúde
e felicidade. Esse é o princípio da aiurveda,
a milenar medicina indiana. Aqui, um programa completo para
ter mais disposição e alegria. |
BEM-ESTAR Bem-estar à indiana
O tempo todo, trocamos energia e informação
com o ambiente que nos cerca, e isso pode tanto nos alimentar
quanto envenenar. Também nossas ações nutrem
ou intoxicam o que está ao redor. O segredo do bem-estar
é fazer trocas limpas com o meio, buscando a pureza em
tudo: na comida, nos relacionamentos, nas palavras que dizemos.
Esses são os princípios da aiurveda, que em sânscrito
quer dizer ciência da vida e nomeia a tradicional medicina
indiana, fundamentada há mais de 5 mil anos. Ela não
busca apenas manter a saúde mas também cultivar
a felicidade. Para isso, é preciso varrer a sujeira física,
mental e emocional. “Ao promover a purificação,
as práticas da aiurveda aceleram a renovação
celular, o que rejuvenesce”, diz Márcia De Luca,
professora de ioga, praticante e consultora aiurvédica.
sem toxinas Para essa ciência, a saúde está
na capacidade de identificar, evitar e eliminar toxinas. Não
basta zelar pela procedência dos alimentos e da água:
idéias negativas, imagens violentas, ruídos e
tudo que invade os sentidos podem contaminar e também
ser purificados pelas técnicas da aiurveda. Algumas lembram
recados de avós sábias: dormir cedo, comer com
moderação, tomar chás. “Esses hábitos
aumentam a energia vital, fortalecem o sistema imunológico
e integram corpo, mente e espírito”, diz Márcia,
que há dez anos os estuda, ensina e pratica. “São
lições adaptáveis à vida e ao estilo
de cada um, já que, nessa tradição, cada
pessoa é única e traz em si a fonte da autocura”,
conclui ela.
Limpeza física
Segundo a milenar medicina indiana, o processo
de desintoxicação do corpo deve seguir os ciclos
da natureza, governada por três forças: movimento
(vata), transformação (pitta) e inércia
(kapha). Pitta reina entre 10 e 14 horas, quando o metabolismo
fica a toda e transforma tudo em energia. Por isso, consideram
que o almoço é a principal refeição
(e não o café da manhã, como defende a
nutrição Ocidental). A melhor rotina para a medicina
aiurvédica é pular da cama às 6 horas –
no limiar entre o período vata e o início da fase
kapha – e dormir cedo. O sono entre 22 e 2 horas rejuvenesce
o físico. Das 2 às 6 horas, fase vata, se dá
a regeneração cerebral. Depois das 18 horas, volta
a influência de kapha, o que deixa a digestão preguiçosa.
Por isso, no jantar tome apenas sopa. Veja outros hábitos
saudáveis, que ajudam a eliminar toxinas.
Gengibre à noite, digestão
em dia
A medicina aiurvédica trabalha com
o conceito do poder purificante do fogo – agni, em sânscrito.
Ele representa a força digestiva, o poder de combustão
do metabolismo. As escrituras indianas ressaltam que, se o seu
agni for forte, você será capaz de transformar
até veneno em néctar. Agni segue o ciclo do sol, portanto a rotina ideal evita alimentos
sólidos à noite, quando o organismo perde o poder
de metabolização e transforma os alimentos ingeridos
em gordura e toxinas. Mas, se é impossível deixar
de comer à noite, pode-se ativar a digestão tomando
muito chá de gengibre ou comendo, antes do jantar, algumas
fatias desse alimento, tônico e digestivo.
A vez da boca
Escovamos os dentes três vezes ao dia, mas não
damos muita atenção à limpeza da língua,
que secreta toxinas. A sabedoria indiana diz que ela também
deve ser cuidadosamente purificada. Para isso, usam um limpador
em forma de haste – encontrado em grandes drogarias ou
lojas de artigos dentários. Pode ser substituído
por uma colher de chá: usa-se sua lateral para raspar
toda a superfície da língua, em movimentos horizontais,
de dentro para fora. Depois dessa prática e dos dentes
escovados, experimente este outro truque aiurvédico,
que, segundo Márcia De Luca, evita a retração
da gengiva: usando o indicador, massageie as gengivas com óleo
de gergelim puro, que é fungicida, bactericida e antiinflamatório.
Líquido da vida
Estrela da beleza, a água libera
o organismo das toxinas químicas captadas no ar e na
comida, garante a irrigação de nutrientes para
os órgãos e ajuda o sistema linfático a
eliminar resíduos, o que favorece a renovação
celular e o viço da pele. “A medicina indiana aconselha
a beber em jejum um copo de água morna com duas gotas
de limão, para ajudar na eliminação de
toxinas acumuladas no estômago durante o sono”,
recomenda a consultora aiurvédica Márcia De Luca.
Depois, durante o dia todo, tome muita água natural,
em temperatura ambiente ou morna, que durante as refeições
ajuda a digestão e evita que a barriga inche. Para saber
quantos litros beber por dia, divida seu peso por 32. A fórmula,
peso em kg : 32 = x litros de água/dia, adaptada ao sistema
brasileiro de medidas no livro A Idade do Poder, é do
médico indiano Deepak Chopra, introdutor dos ensinamentos
aiurvédicos no Ocidente.
Nas refeições
A tradição aiurvédica
ensina que a refeição é um momento sagrado,
de gratidão ao alimento, e deve ser saboreada sem pressa.
“O segredo é perceber a comida por meio do paladar,
do olfato, da visão, transformando esse ato numa espécie
de meditação”, diz Márcia De Luca.
Evite ver TV, ler ou discutir à mesa. Coma apenas quando
tiver fome, nunca com pressa ou bravo. Calcule a quantidade
de comida que caberia nas conchas de suas mãos juntas.
Acredite, é o suficiente para nutrir seu corpo.
Limpeza emocional
Com o corpo purificado, é preciso
limpar também os sentimentos e isso só é
possível com uma visita ao depósito de mágoas,
já que, para a aiurveda, o corpo é desequilibrado
por emoções tóxicas, como raiva, medo,
insegurança, angústia. O único jeito de
lidar bem com elas é assumir seus desconfortos sem responsabilizar
outras pessoas pelo que você sente. A purificação
exige ainda uma visita à sombra: todo mundo tem seus
aspectos menos nobres de personalidade – inveja, orgulho,
fraquezas. Muitas vezes, os ocultamos até de nós
mesmos, por julgá-los feios e incompatíveis com
a máscara social. A antiga filosofia indiana ensina que
não há luz sem sombra e chama à aceitação
das imperfeições, alheias e próprias. “A
chave da harmonia é integrar as polaridades”, diz
Márcia De Luca. Veja ao lado as práticas que ela
indica para limpar as emoções.
Aceite sua sombra
Tome os relacionamentos como espelhos. O
que o incomoda nos outros é reflexo de falhas suas, cuja
existência você não admite. Por sete dias,
escreva qualidades e defeitos que percebe nos outros. Depois,
investigue esses mesmos aspectos em você mesmo. Liste
os conselhos que costuma dar a amigos e parentes. Depois, leia
com atenção e siga-os. São justamente o
que você precisa ouvir.
Amizade com mulheres
Um terapeuta é bom, mas um amigo
é insubstituível para extravasar emoções.
Esse convívio preenche lacunas afetivas, aumenta o autoconhecimento
e relaxa. Segundo estudo feito pela Universidade da Pensilvânia,
nos Estados Unidos, quando uma mulher conversa com outra, seu
organismo secreta mais ocitocina, uma substância calmante
que neutraliza o estresse.
Mexa-se e liberte-se
Caminhar, nadar, dançar, fazer qualquer
exercício ajuda a expulsão de toxinas emocionais.
“A ioga ensina o Sopro Rá, uma postura que libera
ansiedade, medo e angústia”, diz Márcia
De Luca. De pé, com os pés afastados na largura
dos quadris, inspire profundamente, erguendo os braços.
Entrelace as mãos no alto, girando as palmas para cima,
alongando todo o corpo. Ao expirar, flexione o corpo para frente
e grite “Rá”. O som deve sair bem seco e
curto, do plexo solar e não da garganta. Repita cinco
vezes.
Aromaterapia milenar
Na medicina indiana, a aromaterapia é
um recurso de cura e purificação física,
mental e emocional. São justamente das escrituras hindus,
com suas descrições de técnicas de aiurveda,
os primeiros registros históricos do uso terapêutico
de óleos aromáticos. “É uma atuação
invisível e instantânea: na inspiração,
a informação aromática viaja do nariz ao
hipotálamo, a região do cérebro que causa
as sensações, lembranças, reações
físicas. Além de provocar memórias e mudar
estados de espírito, todo óleo essencial é
antiséptico e bactericida”, explica o osmólogo
Fernando Amaral, de São Paulo. Segundo ele, os aromas
agem numa escala que vai do plano físico ao plano mais
sutil. No estágio físico, o aroma afeta o organismo.
“Respirar ar puro, por exemplo, melhora nossas defesas,
pois alivia a sobrecarga do sistema imunológico”,
explica. Em nível mais sutil, a limpeza não está
relacionada à estrutura molecular do cheiro, mas à
freqüência energética daquele aroma. “Por
isso, os ambientes podem ser purificados com aromas, música
e cores, que se expandem pelo lugar, alterando as vibrações
e causando efeitos transformadores. Podem também limpar
o campo mental e neutralizar emanações inconscientes
e nocivas, como a inveja”, diz Amaral. Há várias
maneiras de usar os óleos aromáticos. Para os
ambientes, deve-se usar um difusor a vela. Amaral recomenda
encher a parte superior do difusor com água e acrescentar
20 gotas de óleo, suficientes para ambientes de até
40 m2. Ele indica óleos essenciais para cada nível
de limpeza. Escolha um deles. 1. Limpeza física: menta,
eucalipto citriodora, pinho- silvestre, abeto, melaleuca (tea
tree), zimbro (junípero) e ciprestre. 2. Limpeza emocional:
camomila, rosa, palma-rosa, gerânio, ilangue-ilangue,
jasmim e lavanda. 3. Limpeza mental: mandarina, laranja, grapefruit
(toranja), limão, lemon grass (capim-cidreira), eucalipto
e alecrim.
Menopausa na visão indiana
“Fazer 50 anos é passar pela
experiência do nascimento com suas dores e alegrias. Nesse
segundo nascimento, a mulher não conta mais com um corpo
novo em folha, mas, em compensação, agora conhece
o mundo e pode planejar o futuro”, escreve Márcia
De Luca em seu livro A Idade do Poder. Discípula do médico
indiano Deepak Chopra, que introduziu os ensinamentos da milenar
medicina indiana no Ocidente, Márcia aproveitou esse
conhecimento e sua experiência pessoal para fazer um guia
de saúde e beleza para todas as idades, com destaque
para a menopausa. Para a filosofia aiurvédica, o fim
da fertilidade traz criatividade extra, força realizadora
e evolução espiritual. “Sede de saber é
um aspecto natural da menopausa”, diz Márcia. A
compreensão das mudanças que acontecem no corpo
e na alma é a base de uma travessia serena para outra
etapa da vida, que pode ser muito prazerosa e plena. É
importante aceitar que a silhueta muda. Como o metabolismo cai,
é preciso menos comida e mais exercícios para
manter o peso. “Mas com moderação: magreza
excessiva agrava a baixa da produção hormonal”,
lembra a consultora aiurvédica.
Mais vitalidade
A mulher de meia-idade está sob influência
de vata, força do ar e éter. Pele e cabelos ficam
secos como o ar, e o humor, instável como o vento. São
bem-vindas massagens com óleos e refeições
ricas nos sabores doce, salgado e ácido, que equilibram
a agitação de vata. As atividades devem ser intercaladas
com mais tempo de quietude, pois é do repouso e do silêncio
que virão a renovação e as respostas a
esse novo ciclo. Mais que nunca, é necessário
aprender a meditar, o que combate insônia, depressão,
descontrole emocional. Segundo Márcia, na idade do poder,
o principal é abraçar uma missão de vida.
Mesmo permanecendo feminina e jovem, a mulher deve desapegar-se
do papel de sedutora, redirigindo de um jeito todo próprio
as energias para servir ao mundo.
Limpeza mental
O silêncio higieniza a mente e previne
doenças e desequilíbrios mocionais, por isso a
meditação é fundamental na medicina aiurveda.
“A prática diária proporciona relaxamento
dentro do estado de alerta, facilitando a prontidão e
a clareza nas decisões”, diz Márcia De Luca.
Isso ajuda nas situações de estresse. “Diante
das tensões, deixamos de seguir o instinto de lutar ou
fugir, bom apenas para o homem das cavernas, que era feio e
morria cedo”, diz, brincando. O exercício a seguir
harmoniza os hemisférios cerebrais com base na contemplação
de uma figura sagrada do hinduísmo, o Yantra (desenho
abaixo), que simboliza a interação perfeita das
forças do Universo.
Meditação com Yantra
• Sente-se e respire com calma. Focalize
o ponto bem no centro do desenho. Depois, fixe os olhos no triângulo
(representa a força feminina).
• Amplie a visão até os círculos
(associados aos ciclos cósmicos). Perceba as pétalas
da flor de lótus (simbolizam a abertura do coração).
• Observe o quadrado (mundo material) e os portais em
T (passagens do mundo externo ao interno).
• Fixe o olhar no desenho todo para que outras formas
e padrões surjam naturalmente.
• Relaxe as pálpebras e veja o desenho meio desfocado.
• Sem mexer os olhos, volte a atenção para
o centro da figura.
• Lentamente, vá ampliando seu campo de visão
até um ângulo maior que 180 graus. E, devagar,
volte a olhar para o centro.
• Feche os olhos. Talvez ainda veja a figura em sua mente.
TEXTO: HELOÍSA HELVÉCIA REPORTAGEM FOTOGRÁFICA:
ANA PAULA LOPES FOTOS: MARI QUEIROZ
Fevereiro 2003
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