O prego
— Vocês podem parar de fazer barulho?
— Er, boa noite... Quem fala?
— É um absurdo, já deu 20 horas, será que vocês não leram o regimento, não?
— É que mudamos hoje e ainda tem muita coisa encaixotada...
— Se cai um prego aí, dá para ouvir aqui embaixo!
— Desculpe, senhor... A gente promete se comportar. A propósito, meu nome é Carol, e o seu? Alô? Alô?
Foi assim que conheci seu Mário, meu vizinho do andar debaixo. Mal o caminhão de mudança tinha dobrado a esquina, ele já estava interfonando em casa. Nem preciso dizer que a primeira semana foi um caos, com o homem ligando a cada meia hora, né? Era só eu ligar a furadeira ou bater o martelo — mesmo que nos horários estabelecidos no regimento interno —, para ouvir meu interfone tocar.
Eu já estava pegando uma birra danada de seu Mário quando, um dia, abro a porta do elevador e dou de cara com ele. Estava acompanhado de uma senhora franzina, simpática e falante. Julieta, como fez questão que eu a chamasse — “dona é muito formal, né?, somos vizinhas!” —, tem um problema sério de saúde. É por ela precisar de repouso constante que seu marido tanto me amolava.
Depois disso, toda vez que entro em casa, cuido para pisar na pontinha dos pés. Se pudesse, eu flutuava. Mas vocês está louco se espera que eu vá tocar a campainha no andar debaixo. Seu Mário ainda me dá calafrios. Postado por Carol Costa - 12/08/2008 comentários: 10




